A hipocrisia política brasileira no combate às drogas

Do G1
com comentários Pr Artur

FHC aparece em documentário sobre liberação da maconha e revela toda a sua hipocrisia política em entrevista

O documentário “Quebrando o tabu” estreia nos cinemas brasileiros na próxima sexta-feira (3) expondo falhas nas políticas de repressão às drogas e propondo um debate sobre a descriminalização da maconha. Personagem central do documentário, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é conduzido aos meandros do sistema no Brasil e a um aprendizado sobre iniciativas não repressivas em outros países.

“Aprendi muitas coisas. Não sabia o que tinha dado certo, o que tinha dado errado”, disse, em entrevista após a exibição do filme para jornalistas em São Paulo. No filme, o ex-presidente conversa com autoridades e especialistas de vários países, mas também sobe o Morro Dona Marta, no Rio de Janeiro. Conhece um coffee shop que vende maconha em Amsterdã, acompanha a audiência de um usuário em Portugal, vê um empresário americano chorar a morte da filha por overdose de heroína e visita detentas do presídio do Carandiru, em São Paulo.

O diretor, Fernando Grostein Andrade, conta que a ideia do filme surgiu há quase dez anos, quando conheceu jovens traficantes da Rocinha durante a gravação de um videoclipe e ficou impactado pelo contraste entre aquela realidade e a de um coffee shop holandês. “Falava sobre a ideia e todo mundo tratava como se fosse apologia à maconha”, contou.

Tempos depois, assistiu na TV a uma reportagem sobre um relatório da Comissão Latinoamericana sobre Drogas que apontara falhas na repressão aos entorpecentes. Na tela, estava Fernando Henrique, um dos membros da comissão. “Ficou claro que, pra esse filme dar certo, precisava de uma pessoa que tivesse credibilidade”, disse. Reuniu “uns 30 argumentos” e levou o projeto ao ex-presidente.

Fernando Henrique Cardoso e o médico Drauzio Varella conversam com presidiárias em cena do documentário (Foto: Divulgação/Spray Filmes).

No começo, foi difícil conseguir patrocinadores. “No geral, as pessoas têm uma resistência muito grande a ter suas marcas relacionadas a drogas, ainda que fosse algo contra as drogas. A gente só conseguiu captar patrocínio quando já tinha partes do filme para mostrar”, conta o diretor. No total, foram captados R$ 2,7 milhões. “O patrocínio já mostra que o tabu está sendo quebrado”, avaliou.

Gravado em oito países, o documentário parte da desconstrução da guerra às drogas declarada pelos ex-presidentes dos Estados Unidos Richard Nixon e Ronald Reagan há cerca de 40 anos. Um dos personagens do filme é Anthony Pappa, um americano que passou 12 anos numa prisão de segurança máxima dos EUA por entregar um envelope contendo uma pequena quantidade de droga. Ele ganharia US$ 500 pelo serviço.

“Na prisão, vi mais drogas ao meu redor do que no mundo real”, contou, na entrevista realizada após a exibição do filme para a imprensa. É dele a frase que ilustra o documentário: “Se não conseguimos acabar com as drogas dentro de uma prisão de segurança máxima, como podemos acabar com elas em uma sociedade livre?”

Anthony Pappa em cena de 'Quebrando o tabu' (Foto: Divulgação/Spray Filmes)

De uma prisão brasileira, o médico Drauzio Varella afirma que a maior parte das presas chegaram ali por traficar para os maridos e que, uma vez libertadas e estigmatizadas pela ficha suja, dificilmente conseguirão outro emprego fora do tráfico.

‘Mea culpa’ de políticos e personalidades pop
Recheado de números, pesquisas e comparações, “Quebrando o tabu” tenta ser didático e, para isso, confronta argumentos. Um usuário monta um baseado e contesta uma propaganda do governo brasileiro de que quem compra drogas financia o tráfico. Em outro momento, um especialista rebate a fala de um detento de que, se a venda de maconha deixar de ser crime, os traficantes migrarão para outras atividades com roubos e seqüestros.

Um dos destaques do filme é o “mea culpa” de políticos. O ex-presidente Bill Clinton diz que falhou ao se opor à distribuição de seringas para usuários – um dos pilares das políticas de redução de danos. O ex-presidente Jimmy Carter diz que a guerra contra as drogas desperdiçou dinheiro e reconhece que há discriminação racial nas leis e na repressão. Ruth Dreifuss, ex-presidente da Suíça, admite o fracasso de parques destinados a usuários de drogas.

Personalidades do mundo pop entram em cena contra a hipocrisia no debate. O ator mexicano Gael García Bernal conta que já teve pés de maconha em casa e diz que, ao falar sobre isso, sente como se “confessasse” algo. O escritor Paulo Coelho pede sinceridade no diálogo com os jovens. “Seja aberto, seja honesto. Diga: ‘realmente a droga é fantástica e você vai gostar, mas cuidado porque você não vai decidir mais nada’”.

Cópia do filme foi enviada para Dilma
O ex-presidente diz que já enviou uma cópia do filme para a presidente Dilma Rousseff, mas rejeita um viés político na discussão. “Não acho que é um tema que se preste ao debate eleitoral. É um tema social”, afirma. Ele reconhece que, como ex-presidente, se sente mais à vontade para discutir o assunto. “Não posso dizer que se fosse presidente hoje faria acontecer. Não sei qual seria minha relação com o Congresso”, diz.

Por fim, afirma que é preciso liderança para políticos enfrentarem o tema. “As sociedades não mudam de uma vez. Não dá pra ficar pensando no fim do processo. É preciso dar passos. É dizer que a cadeia não vai resolver e que lá o usuário vai usar mais droga. Tem que liberar a pessoa do contrabandista. Se você quer mudar as coisas, tem que ter convicção. Você não lidera ou muda a sociedade se vai de acordo com as pesquisas. Tem que tentar ganhar a maioria. É claro que existe resistência, interesses organizados. Mas se tiver energia e clareza na argumentação, você consegue”, diz.

NOTA Pr. Artur Eduardo: É cômico vermos como os políticos brasileiros se sentem à vontade para, até em entrevistas, mostrarem como estão à vontade ante às contradições típicas da hipocrisia política nacional. Este é o caso de FHC, que faz um documentário como este, o qual mostra o usuário apenas como vítima, isentando-o de todos os transtornos sócio-econômicos que se nos advém com o uso de drogas. Se esta é e foi sua convicção, por que relegar tal atitude (a de apresentador do documentário) à atual posição, ou seja, de ex-presidente? Por que ficava “mal na fita” quando era presidente? E o que dizer de sua declaração, absurda, de praticamente limitar a esfera de ação presidencial à “relação com o Congresso”? Ao fim, vemos que na mente deste ícone da política nacional, a questão não é “sociológica”, mas essencial e pragamaticamente política.

Em tempo: vc ouve falar de tráfico de drogas em países como China, Arábia Saudita, Indonésia, Emirados Árabes, Tailândia, ou seja, em regimes totalitários, mesmo sendo, alguns, pontos turísticos de muitos ocidentais? Não seria, também, por causa das políticas antidrogas destes países? Talvez o fato de que em alguns deles há prisão perpétua e pena de morte para tal crime ajude. Não excluo os muitos meios de conscientização de que dispomos, prezado internauta. Não excluo os grupos de apoio, as casas de recuperação etc. Mas, observe: que tipo de conscientização antidrogas vemos por parte do governo? Seja sincero. Você vê propagandas conscientizadoras acerca das drogas? Vê algum telefone de um serviço público que dê alguma orientação psicológica a usuários ou potenciais usuários? Vê alguma infraestrutura decente no serviço de tratamento e manutenção do usuário e do ex-usuário? Como o Brasil, como diz meu sogro, “é um país que quer ficar rico por decreto”, vê-se este tipo de discussão, quando nos comparamos a países como Suíça, EUA, Holanda que, a despeito de suas políticas de repressão ou liberação às drogas, têm dinheiro para, por hora, sustentar o caos social que as drogas geram!

Dilma não deveria perder tempo assistindo estas bobagens. Deveria investir seu tempo pensando a completa inexistência de uma política antidrogas que seja clara e acessível a todos os cidadãos.

Em Cristo Jesus,

Pr. Artur Eduardo

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