Fumar maconha acelera início da esquizofrenia, diz estudo

Da Folha de S. Paulo
Guilherme Genestreti – Ricardo Mioto

Segundo estudo, usuários têm sintomas três anos antes do que os não usuários
Quem tem predisposição à doença é mais suscetível aos efeitos da droga, conforme hipótese

Fumar maconha pode adiantar em quase três anos o aparecimento de esquizofrenia e de outros quadros psicóticos. A conclusão é de uma revisão de 83 estudos científicos já publicados sobre a relação entre o consumo dessa erva e o transtorno.

Os resultados, divulgados no periódico médico “Archives of General Psychiatry”, dão mais munição a pesquisadores que se opõem à liberação da substância ilícita.

Os pesquisadores das universidades de New South Wales, Austrália, e Emory, EUA, avaliaram dados de 22 mil portadores de distúrbios psicóticos -sendo 8.167 deles usuários da droga.

A doença aparecia em média 2,7 anos antes entre quem consumia a erva do que nos membros do grupo-controle.

“Acredito que essa relação seja de causa e consequência, e a maconha tem um papel importante [no aparecimento precoce do transtorno] em certas pessoas”, disse à Folha o psiquiatra australiano Matthew Large, um dos autores do estudo.

Uma hipótese é que pessoas com predisposição genética para esquizofrenia são mais suscetíveis à influência da maconha.Nelas, os quadros psicóticos poderiam ser desencadeados pela alteração na concentração de neurotransmissores como dopamina e serotonina, causada pela droga, o que desregularia o funcionamento cerebral.

“Pessoas com histórico familiar de esquizofrenia devem ser instruídas a jamais usar essa droga. Não dá pra arriscar”, diz Hélio Elkis, coordenador do Projeto Esquizofrenia do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Segundo o psiquiatra, quanto mais cedo aparece a doença, pior o prognóstico. “Se surge na adolescência, o cérebro não teve tempo de se desenvolver completamente.” Isso piora o deficit cognitivo, próprio do transtorno.

ANSIOLÍTICO

Mas para Marcelo Niel, psiquiatra do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Unifesp, deve-se ter cuidado ao fazer a relação direta entre esquizofrenia e uso da cânabis.
“Em pacientes com vulnerabilidade, isso pode acontecer, mas há fatores que devem ser considerados.”

Niel afirma que, como a esquizofrenia geralmente começa quando os indivíduos são adolescentes ou adultos jovens, pode ser que o consumo da substância esteja mais relacionado a um hábito do grupo social naquela idade do que a uma causalidade.”E muitos pacientes esquizofrênicos começam a fumar maconha para aliviar os sintomas do estágio inicial da doença, como ansiedade e depressão”, diz.

Matthew Large, o autor do estudo, sugere: “Jovens deveriam evitar o uso de maconha ou, mais precisamente, deveriam se conscientizar sobre os seus riscos. Como informá-los disso já é outra história”, completa.

ANÁLISE

“Guerra” de estudos ganhou munição na última década”

Quando um estudo sobre os efeitos da maconha é publicado, só há uma certeza: suas conclusões levarão pancada até que sirvam como argumento a favor ou contra a legalização da substância.

O estudo que aponta relação entre maconha e surgimento precoce de esquizofrenia, é só mais um que vai se unir aos últimos trabalhos publicados e adotados pelos que querem atacar a cânabis.

A lista é longa: maconha eleva o risco de o sujeito desenvolver desde a óbvia perda de memória até depressão e deficiência cardiovascular.

Após levar esses estudos científicos na cabeça, os defensores da maconha reagem com a sua infantaria: pesquisas que mostram os efeitos benéficos da erva contra dor crônica, ansiedade, náusea e perda de peso, entre outras.

Não é raro que as mesmas equipes de cientistas publiquem um “paper” com gosto de “legalize já” em um dia e outro com jeito de “erva do demônio” pouco depois.

Demonstração de que os grupos favoráveis e contrários à legalização têm dificuldade para perceber isso aconteceu nesta própria Folha, no ano passado.

Dois grupos de pesquisadores com posições muito opostas sobre a legalização da erva trocaram artigos se acusando. A questão é que ambos defendiam os seus pontos de vista citando exatamente a mesma referência científica: as conclusões do pesquisador Robin Room, da Universidade de Melbourne, publicadas em 2008.

Ele revisou centenas de estudos sobre a erva, a maioria divulgada após 2000. Como a década que passou trouxe muitos trabalhos sobre o tema, a guerra de artigos científicos ganhou combustível.

É provável que os estudos sigam sendo mal usados no debate sobre maconha, que não deveria se limitar ao diálogo de quem grita “tenho um paper” e de quem responde “mas tenho outro!”.

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