Com a dor do Haiti, cresce uma igreja carismática

Do The New York Times
por Anne Barnard
reproduzida pelo Portal Uol

Na noite de sábado, no porão de uma igreja em grande parte haitiana daqui, em uma sala branca despojada vibrando com hinos e exclamações, uma jovem pode se ver canalizando o Espírito Santo para revelar notícias do Haiti.

O terremoto que matou cerca de um quarto de milhão de haitianos há 10 meses tornou a devoção ruidosa da paróquia, SS. Joachim and Anne, ainda mais exuberante. Em 12 de janeiro, nem duas horas após do terremoto ter devastado sua terra natal, imigrantes haitianos já lotavam a igreja, dançando, cantando, erguendo os braços para o alto –e louvando a Deus. Em meio aos lamentos, imposições de mão e o número surpreendente de ações de graças por pessoas que ainda nem sabiam se seus parentes estavam vivos ou mortos, os lenços de papel se esgotaram.

A dor prosseguiu ao longo do ano e a frequência inchou, à medida que as pessoas passaram a buscar consolo em um crescente modo fervoroso de adoração, a oração carismática, que mais e mais toma conta da paróquia e do catolicismo haitiano. O jovem vigário nascido no Haiti, Jean-Moise Delva, realizou uma dúzia de missas em memória dos mortos, passou o mês de agosto no Haiti realizando missas em uma tenda abafada e ainda lida com sentimentos de impotência e desespero. Em outubro, as pessoas lotavam a SS. Joachim and Anne, cantando, dançando e segurando fotos de parentes doentes no alto pedindo cura, enquanto uma freira que visitava o Haiti invocava o Espírito Santo.

Delva se voltou ao padre, Robert Robinson, e disse: “Parece que eles têm mais fé do que nós”.

O desastre está moldando a religião haitiana. Ele tem exigido uma maior resistência –não apenas de haitianos e haitianos-americanos, que frequentemente dizem contar com uma resistência lendária, de inspiração divina, mas também com a própria fé, repentinamente mais vulnerável à dúvida, desilusão e competição. E injetou nova vida na versão dos haitianos do catolicismo carismático, que busca contato direto com o Espírito Santo por meio da oração ruidosa, desinibida.

Neste ano, para muitos haitianos, o abraçar da emoção pura pelo movimento pareceu ser a única resposta sensível.

O catolicismo permeia a história e identidade haitiana. Mas o terremoto ocorreu em um momento em que o domínio do catolicismo estava cedendo. Pentecostais e outros protestantes –prometendo uma ligação mais direta, menos hierárquica com Deus– conseguiram avanços aqui e no Haiti. O governo americano lista o Haiti como sendo 80% católico, mas um levantamento da ONU apontou que, em 2003, o número tinha caído para 55% e que 29% dos haitianos se identificavam como protestantes.

O movimento carismático católico nasceu durante um levante na fé. Em 1967, dois anos após o Concílio Vaticano II ter reduzido a ênfase no ritual e no mistério, um grupo de estudantes católicos relatou ter sido inspirado pelo Espírito Santo a falar em línguas desconhecidas –assim como os pentecostais, que buscavam o misticismo do cristianismo do primeiro século.

O movimento se disseminou, misturando o fervor à moda antiga com participação direta mais progressista dos leigos, especialmente das mulheres. Alguns padres fizeram objeção, mas os líderes da Igreja viram potencial de recrutamento e o papa Paulo VI o abraçou em 1975.

Naquele ano, o homem que posteriormente tornaria a SS. Joachim and Anne em um centro para os carismáticos, o padre Joseph Malagreca, era um padre ítalo-americano recém-ordenado inflamado por seu próprio “batismo no Espírito Santo”. Ele voltou para Nova York para pregar em espanhol e crioulo, para imigrantes culturalmente propensos a misturar adoração com emoção, música e dança.
Delva nasceu naquele mesmo ano na capital do Haiti, Porto Príncipe, e cresceu sem traçar distinção entre as orações carismáticas das quais participava com suas tias e os rituais formais que aprendeu como coroinha.

Marie Andree Mars, 63 anos, na época no Haiti e atualmente uma das paroquianas de Delva, lembra da reação da maioria dos haitianos ao movimento: “Isso é para mim”.

Seus tamborins e batidas de pé, que lembram o vodu, ofendiam sua mãe (ela dizia, “Onde está o silêncio, a reverência?”) e alguns padres (“Vocês não farão nada haitiano na minha igreja!”).

Mars ingressou exatamente por esses motivos. Uma respeitável frequentadora da igreja, ela usa chapéus de aba preta e lidera um grupo que reza o rosário toda manhã. Ela diz: “Eu adoro dançar e cantar”.

Esses carismáticos convergiram para a SS. Joachim and Anne, uma igreja moderna na divisa leste de Nova York, entre casas padronizadas bonitinhas e bulevares margeados por restaurantes caribenhos e de fast food.

Malagreca, na época um proeminente líder carismático, se tornou padre em 1991. Suas missas em crioulo promoveram o crescimento da congregação, atualmente 80% haitiana. (Atualmente um monsenhor, ele supervisiona 120 grupos de oração em espanhol e 21 em crioulo na Diocese Católica Romana do Brooklyn, assim como 100 grupos em inglês; em todo o mundo, o movimento alega ter atraído 150 milhões de católicos ao longo dos anos.)

Na noite do terremoto, o encontro de oração de terça-feira deixou de lado seu início habitualmente lento; as pessoas simplesmente entravam aos prantos. Uma dessas pessoas era Benoit, cuja sobrinha estava desaparecida no Haiti. Intelectualmente, sua fé aceitava que o “sofrimento faz parte da vida”. Mas ela precisava que os toques e vozes carismáticas lhe dissessem que tudo estava bem.

Delva temia por seu pai desaparecido e o conforto que parecia poder oferecer aos outros –“Deus está conosco em nosso sofrimento”– parecia pálido e inapto. “Ele ficou sentado lá como uma estátua de sal”, lembrou Benoit. “Ele mal conseguia abrir a boca.”
Outros preencheram o vácuo, chorando e gritando. Benoit lembra da adoração extraintensa a Deus; Delva lembra de “mais orações ao Haiti do que louvores”. De qualquer forma, diz o padre, o que a oração carismática dá aos fiéis ficou claro: “uma forma de Deus ouvir seus lamentos”.

Ocorreram algumas reações feias. No Haiti, Mars lembrou de ter ouvido pessoas de lá, protestantes, dizendo: “Deus está se livrando do lixo”.

O evangelista americano Pat Robertson, se referindo a uma cerimônia vudu do século 18 por revolucionários haitianos, chamou o terremoto de punição por Deus pelo “pacto com o diabo”. (Robinson teve que se defender de um congregado irado que, o confundindo com “Robertson”, achou que tinha sido ele quem tinha dito.)

Dúvidas mais simples eram ouvidas entre os devotos. Enquanto o grupo do rosário de Mars louvava a bondade de Deus, uma mulher recuou, dizendo que não havia nada de bom no terremoto. Mars rebateu: “Nada pode nos separar do amor de Deus – nem terremotos, nem nada”.

Por meses, as pessoas lotaram as missas, às vezes dizendo: “Jesus, o Haiti está em suas mãos!” Os padres passaram a sentir que a congregação é que estava pregando para eles, e não o contrário.

Robinson, 66 anos, que não é haitiano, se sobressaltou quando as pessoas declararam que se Deus não tivesse cuidado do desastre, “talvez tivesse sido pior”.

“Essas pessoas existem de verdade?” se perguntou o padre.

Os haitianos, disse Malagreca, precisam do movimento mais do que nunca.

“Elas precisam de intimidade e muita resistência”, disse o monsenhor. “Elas pensam: ‘Outro sofrimento está diante de nós. Como vamos suportá-lo? Nós achávamos que já tínhamos visto o pior antes’.”

A pergunta toma conta dos forasteiros: como as pessoas podem extrair alegria e fé do terremoto?

“A comunidade haitiana daqui realmente sente ser abençoada por estar viva”, explica Benoit. Caso estivessem no Haiti, elas já poderiam ter sido “chamadas por Jesus”; aliviadas, “elas estão tentando se preparar desde já”.

Delva planeja voltar ao Haiti para entregar uma pequena ajuda: pequenas doações da diocese para abertura de negócios, como mototáxis. Ou barracas de alimentos, como a que seu primo perdeu e precisava de US$ 200 para recomeçar.

Dias atrás, ele esteve envolto por incenso na vigília noturna mensal da igreja. As pessoas se agitavam nos corredores em uma espécie de fila de dança, acompanhadas por música não muito diferente daquela de um clube noturno haitiano. Algumas rezaram até o amanhecer, interrompendo apenas para a sopa de lentilha. Elas cantavam em línguas estranhas, com as sílabas desconhecidas fluindo de modo ritmado, como uma poesia dadá.

Foi uma das maiores vigílias já feitas e Delva acha que sabe o motivo. Um novo drama atingiu o Haiti naquela noite, o furacão Tomas. As pessoas temiam que ele afogaria a cidade de tendas ou disseminaria a cólera, que ressurgiu pela primeira vez em um século.
Antes do amanhecer, as pessoas pegaram seus rosários e oraram em crioulo. Elas repetiram a oração 50 vezes.
“Debloke Ayiti”, elas imploraram a Deus.

“Salve o Haiti.”

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