O rei está nu(a)

Do National Geografic

Imponente expressão do poder real, o templo mortuário de Hatshepsut se ergue contra um penhasco desértico em Deir el Bahri. Inscrições em relevo nos pórticos registram os grandes triunfos de seu reinado de 21 anos.

O que terá motivado Hatshepsut a governar o Egito como homem, relegando seu enteado à sombra? A múmia dessa mulher enigmática, bem como sua verdadeira história, acaba de vir à luz.

Há algo de emocionante na ponta de seus dedos. No resto de seu corpo, não resta nenhuma graça. O pano em seu pescoço parece fora de moda. Sua boca, com o lábio superior sobrepondo-se ao inferior, se reduz a um franzido pavoroso. As cavidades oculares se acham preenchidas com resina negra, e as narinas, oclusas de forma bem pouco elegante com rolinhos de tecido. O ouvido esquerdo se afundou carne adentro na lateral do crânio. E quase não há cabelo em sua cabeça.

Eu me inclino sobre a caixa-vitrine aberta no Museu Egípcio do Cairo e contemplo o que era o corpo da mulher-faraó Hatshepsut, a extraordinária figura feminina que governou o Egito de 1479 a 1458 a.C. e é hoje famosa menos por seu reinado durante a era dourada da 18a dinastia do que por ter tido a audácia de se retratar como homem. Não se percebe nenhum perfume de mirra no ar, como relatavam os antigos textos sobre os ambientes reais. Apenas um odor acre, resultado, talvez, dos muitos séculos que ela passou encerrada em uma catacumba calcária.

É difícil casar essa coisa prostrada com a imagem da grande governante que viveu há tanto tempo e de quem se escreveu outrora: “Olhar para ela era contemplar a beleza maior”. O único toque de beleza humana está na alvura óssea das pontas de seus dedos, as quais, desprovidas de unhas e com a carne mumificada, criam a ilusão de um trabalho de manicure e evocam não apenas a primordial vaidade do ser humano mas também nossa tênue intimidade com as coisas da vida, nosso breve contato com o mundo.

A descoberta da múmia perdida de Hatshepsut suscitou manchetes dois anos atrás, e a história completa se desenrolou feito um drama legista digno do seriado CSI. De fato, a busca por Hatshepsut mostrou até que ponto a colher de pedreiro e o pincel-vassourinha da tradicional caixa de ferramentas do arqueólogo foram suplementadas pelos tomógrafos computadorizados e pelos gradientes termocíclicos de DNA.

Em 1903, o renomado arqueólogo Howard Carter encontrou o sarcófago de Hatshepsut na 20a tumba descoberta no vale dos Reis – a KV 20 (King Valley’s 20). O sarcófago, um dos três que a faraó mandara preparar, estava vazio. Os estudiosos não sabiam onde sua múmia se encontrava ou mesmo se havia resistido intacta à campanha de erradicação dos registros de sua passagem pelo poder, levada a cabo durante o reinado de seu enteado e antigo regente auxiliar, Tutmósis III, que a sucedeu após sua morte. Essa campanha resultou na raspagem sistemática de quase todas as imagens reais de Hatshepsut em templos, monumentos e obeliscos.

O esforço por encontrar a múmia do rei-mulher foi lançado em 2005 por Zahi Zawass, chefe do Projeto da Múmia Egípcia e secretário-geral do Supremo Conselho de Antiguidades. Hawass, junto com uma equipe de cientistas, centrou foco numa múmia que eles chamaram de KV60a, descoberta mais de um século antes, mas considerada na época não tão importante para ser removida do chão de uma tumba menor, a KV60, no vale dos Reis.

A múmia KV60a cruzara a eternidade sem dispor nem mesmo do conforto de um caixão, e ainda menos do séquito de estatuetas representando servos com as quais os faraós eram enterrados de modo a contar com serviçais no além. Ela também não tinha o que vestir – nada de touca real, joias, sandálias de ouro e anéis do mesmo metal nos dedos das mãos e dos pés, e nenhum dos tesouros que haviam sido providenciados para Tutankhamon, um faraó cujo poder nunca se comparou ao de Hatshepsut.

Mesmo com todos os métodos high-tech empregados para solucionar um dos mais notáveis casos da arqueologia, não fosse a fortuita descoberta de um dente, a KV60a poderia ainda estar deitada no escuro, com seu status real incógnito. A ilustre falecida encontra-se hoje entronizada em uma das duas Salas das Múmias Reais do Museu Egípcio, com tabuletas em árabe e inglês proclamando ser ela Hatshepsut, “a Rei”, reunida depois de tanto tempo com sua família extensiva de colegas faraós do Novo Império.

Dado o esquecimento que se abateu sobre Hatshepsut, soa como pungente ironia saber quanto essa mulher-faraó se empenhou em ser lembrada. Ela, que se encontra entre os maiores edificadores de uma das mais pujantes dinastias egípcias, parece ter tido mais medo do anonimato do que da morte. Hatshepsut ergueu e renovou templos e santuá-rios desde o Sinai até a Núbia. Os quatro obeliscos de granito que mandou erigir no vasto templo do grande deus Amon, em Karnak, contavam-se entre os mais majestosos de seu tempo. Hatshepsut encomendou centenas de estátuas de si mesma e deixou testemunhos inscritos na pedra sobre sua ascendência, seus títulos, sua história – tanto a verdadeira quanto a forjada -, e até mesmo sobre seus pensamentos e anseios, os quais ela por vezes confidenciava com candor inaudito. As manifestações das inquietudes da governante inscritas em seu obelisco ainda ressoam com uma quase charmosa insegurança: “Meu coração palpita de preocupação só de pensar no que dirão as futuras gerações. Aqueles que hão de ver meus monumentos nos anos vindouros e tecer comentários sobre meus feitos”.

Muitas incertezas cercam a história dos primórdios do Novo Império, mas é patente que, à época do nascimento de Hatshepsut, o poder egípcio estava se ampliando. Ahmose, seu possível avô e fundador da 18a dinastia, tinha expulsado os temíveis hicsos, uma tribo asiática que ocupara a porção norte do vale do Nilo por dois séculos. Como o filho de Ahmose, Amenófis I, não produziu um herdeiro que o sucedesse, acredita-se que um general amedrontador conhecido como Tutmósis foi guindado ao nível da realeza depois de se casar com uma princesa.

Hatshepsut era a filha mais velha de Tutmósis, cuja Magnífica Esposa Real, rainha Ahmose, era parenta próxima do rei Ahmose. Mas Tutmósis I também tinha um filho de outra rainha, Mutnofret, e esse garoto, Tutmósis II, herdou a coroa quando seu pai “descansou da vida”, segundo o eufemismo egípcio. Seguindo um método comum de fortalecer a linhagem real – e sem nenhum dos escrúpulos modernos quanto à união carnal entre irmãos -, Tutmósis II e Hatshepsut se casaram. Eles tiveram uma filha, sendo que Tutmósis II teve com uma esposa secundária, Isis, o herdeiro homem que Hatshepsut não lhe deu.

Tutmósis II não governou por muito tempo e, ao ser despachado para o além por um ataque do coração, segundo diagnóstico feito 3,5 mil anos depois por um tomógrafo, seu herdeiro, Tutmósis III, não passava de um menino. De acordo com a tradição, Hatshepsut assumiu o controle do poder na qualidade de rainha regente.

Assim teve início um dos mais intrigantes períodos da história do Antigo Egito.

No começo, Hatshepsut agiu em benefício de seu enteado, ciosa em respeitar as convenções sob as quais as rainhas anteriores haviam conduzido os assuntos políticos enquanto os infantes se criavam. Depois de alguns anos, porém, surgiram sinais de que a regência da rainha seria diferente. Relevos desses primeiros tempos representam-na desempenhando funções reais, como realizar oferendas aos deuses e extrair como magia obeliscos de pedreiras de granito vermelho em Assuã. Depois de alguns anos ela havia assumido o papel de “rei” do Egito, o poder supremo local. Seu enteado – que a essa altura já devia ser capaz de assumir o trono – foi relegado à posição de segundo-em-chefe. Hatshepsut então governou por um total de 21 anos.

O que terá levado a mulher-faraó a romper de forma tão extrema com o tradicional papel de rainha regente? Uma crise social ou militar? Política dinástica? Injunções divinas da parte de Amon? Sede de poder? “Havia algo impelindo Hatshepsut a mudar a maneira como se fazia retratar nos monumentos públicos, mas não sabemos o que é”, afirma Peter Dorman, destacado egiptólogo e presidente da Universidade Americana de Beirute. “Uma das coisas mais difíceis de adivinhar é o motivo que a instigava.”

A hereditariedade pode ter a ver com isso. Em um mausoléu nas pedreiras de Gebel el Silsila, seu camareiro-chefe e arquiteto Senenmut refere-se a ela como “primogênita do rei”, distinção que enfatiza sua posição na linhagem como herdeira sênior de Tutmósis I, em vez de principal esposa régia de Tutmósis II. Vale lembrar que Hatshepsut tinha sangue azul puro, aparentada que era do faraó Ahmose, ao passo que seu marido-irmão era o rebento de um rei adotado. Os egípcios acreditavam na divindade do faraó, e apenas Hatshepsut – e não seu enteado – tinha ligação biológica com a realeza divina.

Hatshepsut nunca fez segredo do próprio sexo nos hieróglifos. Em suas inscrições encontra-se com frequência o emprego de terminações femininas. Nos primeiros tempos, contudo, ela parecia procurar meios de sintetizar as imagens de rainha e rei, como se um compromisso visual pudesse resolver o paradoxo de um soberano-mulher. Em uma estátua de granito vermelho, a monarca aparece com um indiscutível corpo feminino mas usando o nemes, a touca ornamental de pano listrado com a figura da naja de capelo eriçado na fronte, símbolos reais. Em alguns relevos em templos, a personagem real surge trajada com a tradicional veste feminina fechada a lhe bater pelas canelas, mantendo, porém, os pés bem afastados na típica pose de passada larga dos soberanos.

À medida que o tempo transcorria, Hatshepsut parece ter resolvido evitar a questão do gênero de uma vez por todas. Ela se fez representar apenas como rei masculino, com a touca característica, o saiote shendyt e a falsa barba do faraó – sem traço de feminilidade. Muitas de suas estátuas, imagens e textos parecem fazer parte de uma campanha de mídia destinada a reforçar a legitimidade de seu domínio sob a égide de um rei, racionalizando dessa forma sua transgressão. Nos relevos de seu templo mortuário, Hatshepsut difundiu a fábula de sua ascensão ao trono como o corolário de um plano divino, declarando que seu pai, Tutmósis I, não apenas pretendia que ela se tornasse rei como também fora capaz de assistir à sua coroação. Nos painéis, o deus Amon é visto diante da mãe de Hatshepsut sob o disfarce de Tutmósis I. Ele comanda Khnum, o deus com cabeça de carneiro que rege a criação e modela o barro da humanidade em sua roda de oleiro: “Vá e a faça melhor que todos os deuses; modele essa filha minha, que eu mesmo gerei”.

Ao contrário da maioria dos empreiteiros, Khnum logo meteu mãos à obra, replicando: “Sua forma, em sua grande dignidade de Rei, será mais exaltada que a dos deuses…”.

Na roda de oleiro de Khnum, a pequena Hatshepsut é representada como um indubitável garoto. A quem se destinava tal propaganda é assunto discutível. Fica difícil imaginar que a soberana precisasse solidificar sua legitimidade junto a poderosos aliados, como os sacerdotes de Amon ou os membros da elite. Quem, então, seria o alvo de seu discurso? Os deuses? O futuro? A National Geographic?

Uma resposta pode ser encontrada nas referências que Hatshepsut faz ao abibe, um pássaro comum nos brejos do rio Nilo, conhecido por rekhyt entre os antigos egípcios. Nos textos hieroglíficos, a palavra “rekhyt”, que ocorre com frequência nas inscrições do Novo Império, costuma ser traduzida por “as pessoas comuns”. No entanto, alguns anos atrás, Kenneth Griffin, hoje na Universidade Swansea, no País de Gales, notou que Hatshepsut fez um uso muito maior do termo que os outros faraós da 18a dinastia. “Suas inscrições pareciam estabelecer uma associação pessoal com o rekhyt sem paralelos àquela altura”, diz ele. A “rei” falava muitas vezes com possessividade do “meu rekhyt”, solicitando sua aprovação – como se essa governante incomum fosse uma populista enrustida.

Depois de sua morte, por volta de 1458 a.C., seu enteado a substituiu, cumprindo o destino de ser um dos grandes faraós da história egípcia. Tutmósis III foi um realizador, como sua madrasta, mas também um guerreiro, o chamado Napoleão do Antigo Egito. Em 19 anos, liderou 17 campanhas militares no Levante, inclusive uma vitória contra os cananeus em Megiddo, atual Israel, feito ainda hoje estudado nas academias militares. Ele teve um rebanho de esposas, uma das quais deu à luz seu sucessor, Amenófis II. Tutmósis III também arrumou tempo para introduzir pratos com galinha à mesa egípcia.

No período final de sua vida, quando outros homens se contentariam em rememorar as aventuras passadas, Tutmósis III parece ter optado por passatempo diverso. Ele decidiu eliminar metodicamente da história sua madrasta.

Zahi Hawass se pôs a campo em busca de Hatshepsut seguro de uma coisa: a rainha não era aquela encontrada nua no chão de uma tumba menor. “Nunca imaginei descobrir que era dela, afinal, essa múmia”, reconhece ele. Para começar, não ostentava nenhum acessório real. Era gorda e, segundo o egiptólogo salientou em um artigo para o jornal KMT, tinha “enormes seios pendentes”, do tipo mais adequado à sua ama-de-leite.

Meses antes, Hawass havia visitado a tumba de Hatshepsut, a KV20, em busca de pistas sobre seu paradeiro – ele desceu por 200 metros para dentro de uma das mais perigosas tumbas do vale dos Reis. O túnel, escavado em xisto e pedra calcária desmoronáveis, fedia a fezes de morcego. Quando Howard Carter o desbravou, em 1903, disse que era “um dos mais acachapantes trabalhos que eu já supervisionara”. Lá dentro Carter achou dois sarcófagos ostentando o nome de Hatshepsut, alguns painéis em paredes calcárias e um canopo (vaso ou caixa em que os antigos egípcios guardavam as entranhas dos mortos), mas nenhuma múmia.

Carter fez outra descoberta em uma tumba próxima – a KV60, uma estrutura menor cuja entrada se recortava no corredor de admissão da KV19. Na KV60 Carter encontrou “duas múmias de mulheres assaz desnudas e alguns gansos mumificados”. Uma delas estava em um caixão, e a outra, no chão. Carter pegou os gansos e fechou a tumba. Três anos mais tarde, outro arqueólogo removeu a múmia do caixão para o Museu Egípcio. A inscrição no caixão foi depois relacionada a uma serviçal de Hatshepsut, não se sabe ao certo se sua antiga ama-de-leite ou alguma camareira. A múmia que repousava no chão ficou do mesmo jeito que estava desde que foi deixada ali, provavelmente por sacerdotes, durante as reinumações em massa de múmias realizadas durante a 21a dinastia, por volta de 1000 a.C., visando a escondê-las dos salteadores.

Ao longo dos anos, os pesquisadores perderam a entrada da KV60, e a múmia deitada no piso saiu de cogitação. Até que, em 1989, o egiptólogo americano Donald Ryan veio explorar tumbas pequenas e carentes de ornamentação no vale dos Reis. Instigado pela influente Elizabeth Thomas, que suspeitava ser a KV60 o abrigo da múmia de Hatshepsut, Ryan a incluiu em seu pedido de permissão para pesquisa.

Tendo chegado muito tarde ao trabalho no primeiro dia, Ryan resolveu dar um giro pelo sítio arqueológico para deixar algumas ferramentas. Ele circulou em torno da porta da KV19 e, só de farra, achando que a KV60 poderia estar próxima, começou a escavar desde a entrada da 19 para trás, dando marcha a ré no corredor de pedra. Em meia hora achou uma rachadura no corredor. Uma portinhola se abriu para vários lances de escada. Uma semana depois, ao som da Sonata Patética, de Beethoven, no gravador, ele e um inspetor local penetraram na tumba perdida. “Era assustador”, lembra Ryan. “Eu nunca tinha encontrado uma múmia antes. Havia uma mulher deitada no chão. Deus do céu!”

A múmia descansava em uma tumba que havia sido vandalizada em priscas eras por ladrões. Seu braço esquerdo estava cruzado sobre o peito em uma pose fúnebre que alguns acreditam ser comum às rainhas egípcias da 18ª dinastia. Ryan se pôs a catalogar tudo que encontrou. “Achamos a tampa danificada de um caixão e flocos de ouro que havia sido raspado de algum lugar”, recorda-se. “Como não sabíamos quanto Carter mexera por ali, documentamos tudo como se fosse um sítio intacto.” Em uma câmara lateral, Ryan topou com uma enorme pilha de bandagens de múmia, uma perna de vaca mumificada e montes de “provisões para múmias” – pacotes de comida enrolados em panos e deixados ali para a longa jornada do falecido rumo à eternidade.

Quanto mais Ryan estudava a múmia, mais achava que devia ser alguém importante. “Estava muito bem mumificada”, ele conta. “E ostentava aquela postura real. Pensei comigo: ‘Uau, ela é uma rainha!'”. Seria Hatshepsut? De todo jeito, não parecia correto deixá-la deitada nua no chão, em meio a uma barafunda de farrapos. Antes de cerrar a tumba, Ryan e um colega arrumaram o aposento e foram encomendar um caixão a um carpinteiro local. Depuseram, então, a dama desconhecida em seu novo leito e fecharam com a tampa. O longo período de anonimato de Hatshepsut se aproximava do fim.

Há muito tempo os historiadores elencam Hatshepsut no papel da madrasta maligna do jovem Tutmósis III. A evidência de sua suposta crueldade era o troco póstumo recebido do enteado, que mandou apagar seu nome real dos memoriais públicos. De fato, Tutmósis III fez um trabalho tão completo atacando a iconografia de Hatshepsut quanto o realizado ao esmagar os cananeus em Megiddo. Em Karnak, a imagem e a cártula com o nome hieroglífico da monarca foram arrancados a talhadeira dos muros do santuário. Os textos em seus obeliscos foram emparedados em pedra – o que, aliás, teve o efeito inesperado de preservá-los em perfeitas condições.

Em Deir el Bahri, local da mais espetacular façanha arquitetônica de Hatshepsut, suas estátuas foram esmigalhadas e atiradas em um fosso defronte a seu templo mortuário. Conhecido como Djeser Djeseru, “o mais sacro entre os sagrados”, na margem ocidental do Nilo, perto de Luxor, o templo foi erguido diante de uma baía de penhascos ocre que enquadra suas pedras amarelo-castanhas da mesma forma que o nemes, ou touca real, enquadra o rosto de um faraó. Com seus três patamares, pórticos, terraços interligados por rampas, a hoje desaparecida via de acesso pontuada de esfinges e tanques rasos com papiros e sombrosos pés de mirra, Djeser Djeseru se alinha entre os mais gloriosos templos jamais construídos. Foi projetado, talvez por Senenmut, para ser o centro do culto a Hatshepsut.

Suas imagens como rainha não foram perturbadas, mas, onde quer que ela se arvorasse em rei, os operários a serviço de seu enteado não deram descanso a suas talhadeiras, num vandalismo aplicado e meticuloso. “A destruição não foi decidida de forma emocional, e sim política”, afirma Zbigniew Szafraski, diretor da missão arqueológica ao Egito, que vem trabalhando no templo mortuário de Hatshepsut desde 1961.

Afinal, que tipo de governante foi Hatshepsut? A resposta pareceu óbvia para um certo número de egiptólogos prontos a abraçar a ideia de que Tutmósis III atacou a memória de sua madrasta como vingança pela inescrupulosa usurpação de seus régios poderes. William C. Hayes, curador de arte egípcia do Metropolitan Museum of Art de Nova York e um dos líderes das escavações em Deir el Bahri nos anos 1920 e 1930, escreveu em 1935: “Não demorou muito… até que essa vaidosa, ambiciosa e inescrupulosa mulher se revelasse em todas as suas verdadeiras facetas”.

Quando os arqueólogos descobriram, nos anos 1960, evidências de que o banimento dos vestígios simbólicos de Hatshepsut havia se iniciado ao menos 20 anos após sua morte, o novelão do enteado vingativo dando o troco à madrasta caiu por terra. Um cenário mais lógico se armou em torno da possibilidade de que Tutmósis III precisasse reforçar a legitimidade de seu filho Amenófis II na sucessão ao trono diante das reivindicações contestadoras de outros membros da família. Sendo assim, Hatshepsut, antes depreciada por sua suposta ambição, é agora admirada por sua habilidade política. “Ninguém pode dizer como ela era”, afirma Catharine Roehrig, hoje curadora no mesmo departamento dirigido outrora por Hayes. “Hatshepsut governou durante duas décadas por ser capaz de fazer as coisas andarem. Acho que ela era muito astuta e sabia como jogar uma pessoa contra a outra para tirá-las de seu caminho sem assassiná-las ou ser por elas assassinada.”

Perto de duas décadas depois de Donald Ryan ter redescoberto a localização da KV60, Zahi Hawass pediu aos curadores do Museu Egípcio que reunissem todas as múmias femininas não identificadas e possivelmente reais desde a 18ª dinastia, inclusive os dois corpos – um magro, o outro gordo – achados naquela tumba. A múmia magra foi tirada do estoque no sótão do museu. A gorda, KV60a, que permanecera na tumba, deixou enfim o vale dos Reis. Durante um período de quatro meses, em fins de 2006 e no começo de 2007, quatro múmias passaram por um tomógrafo que permitiu aos arqueólogos examiná-las em detalhes e levantar sua idade e a causa da morte.

Os resultados das análises das múmias candidatas foram inconclusivos. Então Hawass teve outra ideia. Uma caixa de madeira gravada com o nome hieroglífico de Hatshepsut foi achada em meio a uma coleção de múmias reais, em Deir el Bahri, em 1881. Acreditava-se que ela continha um fígado. Quando a caixa passou por um tomógrafo, os pesquisadores se espantaram em avistar um dente. O dentista da equipe identificou-o como um molar secundário, sem parte da raiz. Ao reexaminar as imagens das mandíbulas das quatro múmias, Ashraf Selim, professor de radiologia na Universidade do Cairo, constatou que na mandíbula superior direita da múmia gorda da KV60 havia uma raiz sem dente. “Medi a raiz na múmia e fiz o mesmo com o dente, descobrindo que ambos combinavam”, diz Selim.

O que os cientistas de fato provaram foi apenas que um dente guardado em uma caixa pertencia a uma determinada múmia. A identificação se baseia na crença em que os conteúdos da caixa correspondem à sua etiqueta e foram um dia partes vitais da famosa mulher-faraó. Além disso, a caixa inscrita com a insígnia hieroglífica de Hatshepsut não é o típico canopo no qual órgãos mumificados são normalmente encontrados. É feita de madeira, e não de pedra, e pode ter sido usada para guardar joias, unguentos ou pequenos valores. “Alguém poderia argumentar que não encontramos nenhuma prova absoluta”, ressalva Selim. “E eu teria de concordar.”

No entanto, como Hawass argumenta, o que pensar de uma caixa identificada com o nome de Hatshepsut, encontrada em um esconderijo de múmias reais, contendo um dente que se encaixa perfeitamente no sorriso de uma múmia que jazia ao lado da bem-amada babá ou camareira da grande mulher-faraó do Egito? É maravilhoso que o dente estivesse lá para conectar a insígnia de Hatshepsut com a múmia. “Se o embalsamador não o tivesse arrancado e colocado junto com o fígado, não haveria como saber o que acontecera com Hatshepsut”, conclui Hawass.

Mais uma vez os tomógrafos mudaram a história, desfazendo as teorias de que Hatshepsut tinha sido morta pelo enteado. A provável causa da morte foi infecção causada por um abscesso num dente, complicada por um câncer ósseo avançado e por diabetes. Hawass aventa a hipótese de que os altos sacerdotes de Amon tenham removido seu corpo para a tumba de sua auxiliar de modo a protegê-lo de saqueadores. Boa parte da realeza do Novo Império foi escondida em tumbas secretas por segurança. Quanto aos testes de DNA, a primeira rodada começou em abril de 2007 e não apontou nada de definitivo.

“Com espécimes antigos, nada bate 100% pelo fato de as sequências genéticas não serem completas”, afirma Angélique Corthals, professora de estudos forenses da Universidade Stony Brook, em Nova York. “Averiguamos o DNA mitocondrial da pretensa múmia de Hatshepsut e a de sua avó Ahmose Nefertari. Há probabilidade entre 30% e 35% de que as duas amostras não estejam relacionadas, mas esses são apenas resultados preliminares.” Outra rodada de testes irá em breve fornecer um veredicto mais claro.

No outono passado, o fotógrafo Kenneth Garrett pediu a Wafaa El Saddik, diretora do Museu Egípcio do Cairo, que checasse uma lista de tesouros de Hatshepsut que ele pretendia clicar: uma esfinge de pedra calcária da mulher-faraó, a caixa de madeira que contém seu dente, um busto de Hatshepsut vestida como Osíris, o deus do mundo dos mortos. Quando El Saddik bateu o olho no item final da lista, o corpo da própria personagem, ela exclamou: “Você quer que a gente remova o vidro?!?” O fotógrafo fez um meneio de cabeça afirmativo. A diretora estremeceu: “Estamos falando aqui sobre a história do mundo!”

Por fim, ficou acertado que se poderia remover um dos painéis de vidro do caixão na Sala das Múmias Reais sem pôr em risco a história do mundo. Ao contemplar os despojos da mulher-faraó sob as luzes do fotógrafo que se acendiam, eu me flagrei indagando a mim mesmo por que era tão importante autenticar seu cadáver. Por um lado, o que poderia avivar melhor a incrível história do Antigo Egito além da monarca preservada em desafio à natureza e às forças da degradação física? Ali estava ela agora, entre nós, feito uma embaixadora da Antiguidade.

O que a gente quer dela, afinal? Não haveria, para começar, uma morbidez opressiva na curiosidade que leva milhões de xeretas à Sala das Múmias Reais? Quanto mais eu contemplava Hatshepsut, mais repulsa sentia daqueles olhos inescrutáveis e da imobilidade daquela carne sem vida. A maior parte de nós vive por um credo que é a antítese da fé dos faraós: do pó viemos, ao pó retornaremos. Mexeu comigo pensar quão mais viva está Hatshepsut em seus textos, nos quais, mesmo depois de milênios, é possível sentir o farfalhar palpitante de seu coração.

As glórias do reino

Hatshepsut introduziu uma era de paz e reconstrução. Sob seu comando, templos danificados foram restaurados, outros foram construídos e obeliscos foram talhados nas pedreiras de Assuã, cidade ao sul do Egito famosa por suas grandes pedreiras, sobretudo de granito. Uma vez restabelecidos seus lucrativos contratos comerciais, o Egito recebeu de novo madeira do Líbano, turquesas das minas do Sinai e uma variedade de artigos de luxo da terra de Punt.

Crédito: Charles Berry

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