Adolescência cada vez mais cedo

Da Folha de S. Paulo

Não é mera impressão. As meninas estão amadurecendo mais rápido. Por trás de sinais externos -como trocar as bonecas por conversas via computador e passeios autônomos no shopping-, há um processo que comanda uma enxurrada hormonal capaz de disparar o desenvolvimento das características sexuais secundárias, que inclui o crescimento dos pelos e das mamas e a chegada da primeira menstruação.

Segundo pesquisadores, esse fenômeno está sendo antecipado, em média, em um ano.

Um estudo, feito na Universidade de Copenhagen (Dinamarca) e recém-publicado na revista “Pediatrics”, constatou a mudança em um dos primeiros sinais da puberdade: o crescimento das mamas. “Há mais estudos sobre a idade da primeira menstruação”, diz Maurício de Souza Lima, médico hebiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo e secretário do Departamento de Adolescência da Sociedade de Pediatria de São Paulo.

A idade média do desenvolvimento dos seios baixou de 10,88 anos entre 1991 e 1993 para 9,86 entre 2006 de 2008, período em que os autores acompanharam mais de 2.000 garotas entre cinco e 20 anos.

Os pesquisadores dizem que já havia dados similares de estudos norte-americanos, mas que, muitas vezes, esse tipo de análise ao longo do tempo enfrenta dificuldades por envolver diferentes grupos de cientistas. Neste caso, o mesmo grupo analisou informações da mesma região geográfica durante 15 anos.

“Não tenho dúvidas de que se trata de um fenômeno mundial”, diz a ginecologista Albertina Duarte, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Ela já havia observado valores parecidos em seus estudos, feitos no Brasil. “Em 1971, a idade da menarca [a primeira menstruação] era 13,2 anos; em 1999, caiu para 12,1.” Sabe-se que o desenvolvimento dos seios se dá cerca de dois anos antes do primeiro fluxo de sangue.

A chamada aceleração secular do crescimento que vem acontecendo ao longo dos anos é a antecipação dos parâmetros da puberdade. “Há uma antecipação de três ou quatro meses a cada década”, conta o hebiatra Maurício de Souza Lima.

Sabe-se, por exemplo, que, no ano de 1900, a primeira menstruação acontecia por volta dos 15 anos. “Mas essa aceleração não deve ser confundida com puberdade precoce, que é uma doença”, ressalta Debora Gejer, hebiatra do Serviço de Saúde do Adolescente do Hospital Sírio-Libanês e do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus, em São Paulo.

A puberdade precoce envolve o aparecimento dos caracteres sexuais secundários antes dos sete ou oito anos de idade.

Vida moderna

Algumas características da vida moderna estão por trás desse fenômeno. Pesquisas com animais mostram que estímulos como luz e som, por exemplo, ativam o eixo hipotálamo-hipófise, que dispara a produção dos hormônios sexuais. “As crianças assistem mais à TV, ouvem mais música, são bem mais estimuladas atualmente”, diz a ginecologista Albertina Duarte.

Acredita-se, no entanto, que a grande responsável pelo fenômeno seja a mudança nos padrões alimentares. “Hoje temos melhores condições de vida”, observa Debora Gejer.

Isso permite que o corpo atinja mais cedo o nível ótimo de desenvolvimento para entrar na puberdade. Não à toa, crianças desnutridas ou com alguma doença crônica mal controlada, como diabetes ou hipotireoidismo, costumam menstruar mais tarde.

Segundo Gejer, a quantidade de gordura no organismo está envolvida na transmissão de mensagens que avisam que o corpo está pronto para crescer mais e se reproduzir.

Cabe ao hipotálamo o papel de “despertador”. Por diversos mecanismos, ele fica sensível à baixa taxa de hormônios sexuais presentes na infância e estimula a hipófise.

Essa glândula, por sua vez, libera os hormônios folículo estimulante e luteinizante, que agem nos ovários, onde vão comandar a produção dos hormônios sexuais como estrogênio e progesterona.

São eles que determinam o desenvolvimento das características sexuais secundárias, inclusive o acúmulo de gordura em regiões como os quadris.

A exposição a estímulos eróticos também parece ter sua parcela de culpa nessa precocidade, embora as pesquisas não sejam conclusivas a esse respeito. “Há uma erotização precoce voltada para o consumo”, nota Albertina Duarte.

Muitas meninas se vestem como mulheres e conversam como adultas. “As crianças estão expostas a muitos estímulos, deixam de brincar para ficar na frente da TV e acabam perdendo muito da infância”, nota a ginecologista e sexóloga Edinalva Braz, do Hospital e Maternidade Santa Joana.

Naturalidade

Por outro lado, as meninas hoje encaram com mais naturalidade essa transição rumo à vida adulta. “O crescimento das mamas ou a chegada da menstruação são até motivo de festa muitas vezes”, nota Duarte.

Elas são mais informadas e têm mais conhecimento sobre o corpo. “Há uma mudança total em relação ao passado”, diz.

As meninas parecem saber que a época das bonecas chegará ao fim e esperam conscientemente por esse momento. Como diz Victória Muniz: “Eu estava ansiosa para crescer e senti que estava crescendo”.

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