HIV contamina muito mais a população masculina homossexual

Do Diário de Pernambuco

Passadas três décadas desde o surgimento da epidemia de Aids no mundo, a população gay ainda é a que corre mais riscos de contrair o vírus da doença. Estudo do Ministério da Saúde divulgado ontem aponta que o HIV já contaminou 10,5% da população masculina homossexual com mais de 18 anos em nove cidades do país e no Distrito Federal. O índice, entre os homens de todas as orientações sexuais com idade de 15 a 49 anos no país, é de 0,8%. A pesquisa, que contou com a participação de 3.616 gays, mostra ainda que, entre os jovens, o descuido com o uso do preservativo é presente, embora eles se iniciem mais cedo sexualmente. Aliado à falta de prevenção, o número maior de parceiros casuais os deixa ainda mais vulneráveis.

“Todas essas questões fazem com que os gays e outros homens que fazem sexo com homens, mas não se identificam como gays, tenham um comportamento sexual mais arriscado”, explica a diretora do Programa Nacional de DST e Aids, Mariângela Simão. Ela ressalta, por exemplo, que entre os homossexuais jovens, de 18 a 25 anos, o uso do preservativo na primeira relação sexual é de 53,9%, contra 62,3% na população masculina geral. Com parceiro fixo no último ano, os gays também se descuidam mais, já que apenas 29,3% utilizaram a camisinha sempre, enquanto 34,6% dos homens em geral tiveram o hábito. No caso de companheiros casuais, a prevenção melhora um pouco, subindo para 54,3%, mas ainda é crítica, embora não muito distante do nível verificado no conjunto da população masculina, 57%.

A frequência de relações casuais também é maior entre os gays. Quase 80% afirmaram ter feito sexo com parceiro eventual no último ano, contra apenas 34,1% dos homens em geral. “Veja, não é um juízo de valor, porque cada um sabe da sua vida sexual. Mas, se o homossexual não se protege e transa mais, é claro que o risco cresce”, diz Mariângela. Um dado que chamou a atenção da diretora foi o nível de escolaridade e de informação a respeito das doenças sexualmente transmissíveis. “É curioso notar que 52,2% dos gays e os outros homens que fazem sexo com homens têm mais de 11 anos de estudo, enquanto na população geral masculina esse índice é de 25,4%. Mesmo assim, eles são os que mais se infectam”, destaca.

Para Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), um grande facilitador da propagação do vírus da Aids é a homofobia. “Quando o gay não pode se assumir por medo da rejeição, do preconceito e da exclusão, ele não tem autoestima, não tem cidadania, e isso acaba conduzindo-o a um comportamento arriscado”, afirma. Segundo a pesquisa, 53,5% dos homossexuais já foram discriminados, xingados, humilhados ou apanharam por conta da orientação sexual. Quatorze por cento dos entrevistados sofreram violência sexual, embora o contexto não tenha sido objeto de investigação do estudo, impossibilitando a classificação dos casos como estupro. “A homofobia leva os homossexuais a uma espécie de clandestinidade, que reflete, isso está verificado em todo o mundo, nas condições de saúde”, afirma Mariângela.

Antônio Carlos Ferreira de Oliveira viveu muito tempo tentando esconder sua preferência. Mesmo depois de revelar para a mãe que era gay, aos 17 anos, e acabar expulso de casa, ele sentia vergonha de ser apontado assim. “Ela contou no bairro e na escola, então as pessoas me chamavam de bicha”, lembra o morador de Ananindeua, no Pará. Depois de seis anos separado da família, sobrevivendo com a ajuda de uma tia, os quatro irmãos o procuraram. Em seguida, a mãe aceitou. “Faz três anos que moro com ela e não falamos mais nisso. Ela só pediu para eu não levar ninguém lá em casa”, conta. Há um ano, ele e o companheiro descobriram ter HIV. “Foi uma nova etapa que tive de vencer. Mas sou alegre, trabalho, pago minhas contas, tomo meus remédios”, diz.

Embora a testagem para o HIV seja uma bandeira do Ministério da Saúde, Mariângela verificou na pesquisa uma frequência elevada de procura pelo serviço por parte dos gays — 54% já fizeram exame na vida, contra 28,5% na população masculina total. No último ano, 23,5% de homossexuais se submeteram ao teste, índice maior que os 11,2% entre os homens em geral. Dezesseis por cento chegam se estão infectados como parte da rotina. “Bom, se a pessoa está constantemente suspeitando estar contaminado é porque não se previne, não usa preservativo. Pior, muitas vezes estão fazendo o teste como uma forma, equivocada, é claro, de prevenção”, critica a diretora do Ministério da Saúde.
“Não é um juízo de valor, porque cada um sabe da sua vida sexual. Mas se o homossexual não se protege e transa mais, é claro que o risco cresce”
Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e Aids

Ouça entrevista com Mariângela Simão, diretora do Programa Nacional de DST e Aids
Do Correiobraziliense.com.br

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