Perdão não substitui justiça, diz papa sobre o escândalo de abusos no clero

Do G1

Declaração foi feito a caminho de Portugal para viagem de quatro dias.
Maior ameaça vem do pecado dentro da própria igreja, disse em entrevista.

O papa Bento XVI disse nesta terça-feira (11) que a crise do escândalo de abusos sexuais contra crianças cometidos por padres deve fazer a Igreja reconhecer a “terrível verdade” de que essa grande ameaça não vem de inimigos externos, mas do “pecado dentro da Igreja”.

“Hoje nós vemos de uma forma verdadeiramente terrível que a grande opressão da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado dentro da Igreja”, disse ele a jornalistas no avião que o leva para Portugal ao responder uma pergunta sobre os escândalos de abusos sexuais cometidos por padres.

“O perdão não substitui a justiça”, disse o papa.

Bento XVI chegou a Lisboa para uma visita de quatro dias a Portugal, durante a qual fará uma peregrinação ao santuário de Fátima.
O avião papal foi escoltado em sua chegada por caças F16 da força aérea portuguesa.

Esta é a segunda viagem ao exterior realizada este ano por Bento XVI, depois da que fez a Malta, em abril passado, marcada pelas críticas por conta dos casos de pedofilia. Portugal finalizou os últimos preparativos para garantir uma recepção calorosa e festiva ao papa.

Dez mil flores da Ilha da Madeira vão compor um tapete pelo qual passará Bento XVI em Lisboa, tendo sido construído, também, na cidade do Porto, um altar em “ouro barroco”.
Esforços não vêm sendo poupados para fazer da viagem do soberano pontífice “um grande momento de alegria”, segundo o episcopado português.

Em Fátima, a cidade-santuário que, segundo o Vaticano, estará no centro da viagem papal, as ruas foram até perfumadas, deixando no ar um “leve odor de limão”.

O govero socialista chegou a decretar, apesar da crise fiscal, um feriado excepcional para o funcionalismo público para assistir às missas, fechando escolas e cancelando o expediente nas repartições.
No domingo, Bento XVI exortou os fiéis a “acompanharem a peregrinação” rezando pela Igreja e, em particular pelos padres”.

A hierarquia católica portuguesa garantiu várias vezes que a visita papal não será “obscurecida por escândalos, apesar da distribuição prevista de mais de 25.000 preservativos por militantes da luta contra a Aids.

“Trata-se de receber um chefe de Estado, e não fazer qualquer tipo de propaganda”, afirmou o porta-voz do episcopado, padre Manuel Morujão, destacando que “o papa falará para todos os portugueses, sejam eles católicos ou não”.

Nos últimos dez anos, depois da visita de João Paulo II, em maio de 2000, Portugal mudou. Embora de maioria católica, mais de 88%, oficialmente, o aborto não é mais crime no país, desde 2007, e os casais homossexuais poderão logo se casar, em seguida a uma lei aprovada em fevereiro e que espera, apenas, a assinatura presidencial.

Não será por acaso se o papa decidir falar, durante a visita a Portugal, “da sociedade de hoje”, segundo o padre Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano.

Além da celebração de três grandes missas, com a participação de cerca de 800.000 pessoas entre Lisboa, Fátima e Porto, o papa fará diversos pronunciamentos, em particular ao desembarcar, nesta terça-feira, mas também ante personalidades do mundo da cultura.

Um dispositivo de segurança excepcional será posto em prática e o trânsito, assim como o estacionamento, serão proibidos ao longo de oito trajetos do papamóvel, em Lisboa e na cidade do Porto.
As autoridades religiosas excluíram a possibilidade de os fiéis serem revistados ou controlados, destacando que “o papa não foi escolhido para viver num bunker”. “As pessoas poderão ver o Santo Padre sem nenhuma complicação”, afirmou o porta-voz do episcopado.

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