Historiadores buscam verdade sobre prostituição nos templos da antiguidade

DER SPIEGEL
publicado no Uol

Manifestação de integrantes da Associação feminista da Ucrânia, em Kiev, em defesa dos direitos humanos para prostitutas e contra o aumento da prostituição

“Prostitutas sagradas” em Jerusalém, sexo no templo a serviço de Afrodite? Muitos autores antigos descrevem a prostituição sagrada em termos drásticos. Seriam essas histórias apenas lendas? Os historiadores estão à procura da verdade por trás dos relatos.

O “costume mais horrendo” na Babilônia, escreveu o historiador Heródoto (que acredita-se que tenha vivido entre aproximadamente 490 a 425 a.C.), era a prática disseminada da prostituição no Templo de Ishtar. Uma vez durante suas vidas, todas as mulheres do país eram obrigadas a sentar-se no templo e “entregar-se a um estranho” por dinheiro.

prostitutas sagradas do mundo antigo

As mulheres “ricas e esnobes”, criticou o historiador da Grécia antiga, chegavam em “carruagens cobertas”.

Os persas no Mar Negro aparentemente estavam envolvidos em atividades igualmente nefastas. Segundo o geógrafo grego Strabo, “as filhas virgens”, que mal tinham 12 anos, eram dedicadas ao culto da prostituição. “Elas tratam seus amantes com tamanha cordialidade que até mesmo os entretêm.”

Há muitos relatos semelhantes na antiguidade clássica. Acredita-se que tribos da Sicília até Tebas supostamente praticavam hábitos religiosos perversos.

Os judeus também estiveram envolvidos nessas práticas. Há cerca de uma dúzia de passagens no Velho Testamento envolvendo os “qadeshes”, uma palavra para os praticantes da prostituição sagrada, tanto do sexo masculino quanto feminino. No Deuteronômio, os prostitutos e prostitutas são proibidos de levar “à Casa do Senhor” o pagamento que receberam.

Os pesquisadores do século 20 adotaram de modo resoluto as referências, que frequentemente são misteriosas. Logo foi considerado um fato que os sacerdotes do Mundo Oriental praticavam a defloração forçada. Foi dito que havia “prostituição por donativos” e “copulação sexual no local de culto”.

Segundo a “Encyclopedia of Theology and the Church”, a prostituição sagrada era “uma mancha de praga moral e higiênica no corpo do povo”. Mas será verdade? Mais e mais acadêmicos agora estão questionando as fábulas eróticas dos antigos.

As histórias eróticas foram exageradas?
Tábuas cuneiformes recém-descobertas pintam uma imagem mais neutra e está ficando cada vez mais claro que os acadêmicos de décadas passadas exageraram o assunto. Por exemplo, não há nenhuma evidência comprovando que existiu o ritual de defloramento forçado.

Algumas pesquisadoras do sexo feminino adotam uma posição ainda mais radical. Elas contestam totalmente a prostituição sagrada, chamando a coisa toda de mentira.

Segundo um novo livro sobre o assunto, tudo começou quando alguns poucos escritores gregos elaboraram hábitos sujos e difamatórios sobre os povos estrangeiros, como evidência de sua inferioridade moral. Nos tempos modernos, escreve a autora, essa imundície se desenvolveu em um “mito de pesquisa”.

Julia Assante, uma acadêmica americana especializada no Oriente antigo e líder do movimento, está convencida de que as prostitutas sagradas são produto da “fantasia masculina”.

Mas, para acadêmicos moderados, esta interpretação vai longe demais. Apesar de também questionarem algumas opiniões acadêmicas exageradas do passado, eles insistem que o fenômeno existiu. Eles acreditam que existiram:

-Templos que operavam bordéis ao lado;
-Templos nos quais garotas ocupavam as mais altas posições do sacerdócio, mesmo antes de sua primeira menstruação;
-Prostitutas profissionais que doavam seu dinheiro aos templos, como o dedicado à deusa Afrodite.

Afrodite. deusa grega da beleza e do amor.

Um debate amargo está se desenrolando, com assiriólogos de inclinação feminista brigando com professores da velha guarda. Enquanto os primeiros condenam consistentemente as teorias de prostituição sagrada como apenas mentiras, os últimos, citando a gramática sumeriana, defendem seu suposto “ponto de vista patriarcal”.

Prostituição de rua nos tempos antigos
Há, entretanto, um acordo em relação à prostituição comum de rua nos tempos antigos. Usando maquiagem espalhafatosa e xales amarelos, as prostitutas de Atenas anunciavam seus encantos aos pés da Acrópole. “Garotas de flauta” especiais ofereciam tocar o aulos para seus clientes antes de prestar seu serviço.

As prostitutas de rua de Roma cobravam quatro ases (o equivalente a cerca de10 euros ou US$ 14). Messalina, uma famosa cortesã, se tornou imperatriz quando se casou com o imperador Cláudio.

A terra das pirâmides também oferecia prazeres pecaminosos. Suas prostitutas esfregavam bálsamo nos corpos de seus clientes. “Seu falo está nas mulheres Chenemet”, diz o texto de um papiro antigo. “Um homem pode copular melhor que um burro. É apenas sua bolsa que o impede.”

ISTHAR, a deusa-lua, cujo culto foi mais disseminado na Antiga Babilônia. Deusa que 'despertava' o impulso sexual nos animais e nos homens.

A Mesopotâmia era particularmente conhecida por sua falta de valores morais. Uma prostituta chamada Shamhat (“A Voluptuosa”), que aparece no épico “Gilgamesh”, seduziu o selvagem Enkidu: “Ela desnudou seus seios, expôs seu sexo e ele se deleitou em sua voluptuosidade”.

Havia poucas objeções à profissão no Vale do Eufrates. Uma tábua de argila conta a história de uma mulher jovem que recebe seus clientes na casa de seus pais. Ela era paga com a carne de um leitão.

A Prostituta da Babilônia
Mas o que acontecia nos locais sagrados? O que acontecia por trás dos muros do Templo de Ishtar? Isso é fonte de disputa entre os acadêmicos.

O Oriente dedicou prédios enormes à sua deusa do sexo e amor. Hinos a louvavam como “Senhora das mulheres” com “encantos sedutores”. “Nos lábios ela é doce; a vida está em sua boca” – Prostituta da Babilônia.

O culto de Ishtar logo se espalhou para o norte, primeiro para Chipre, onde colonos gregos entraram em contato com a deusa e a rebatizaram de Afrodite. Segundo o mito grego, a bela Afrodite se ergueu de uma mancha de sangue no mar, onde a água estava tingida de vermelho e cheia de esperma. Foi o ponto onde Cronos, o senhor dos Titãs, atirou a genitália cortada de seu pai no mar.

A deusa, “nascida da espuma do mar”, nunca foi inocente, mas cheia de desejo e de uma orgia dos sentidos. Em Uruk, um festival orgiástico semelhante ao Carnaval era celebrado em sua homenagem há 5 mil anos. Listas antigas mostram que dançarinas e atrizes trabalhavam no Templo de Ishtar.

Sem sinais de atos sexuais no altar
Todavia, não há sinais de que atos sexuais e rituais de fertilidade ocorriam diretamente no altar, como os acadêmicos antes alegavam. “Não há nenhuma evidência dessas práticas mágicas”, explica Gernot Wilhelm, um orientalista da Universidade Julis Maximilian, em Würzburg, Alemanha.

Heródoto inventou sua história de sexo forçado entre as mulheres da Babilônia?

Pesquisadores de gênero acham que sim.

Todavia, provavelmente há mais por trás da história do que parece. O templo da deusa do sexo também incluía um grupo especial de culto, as “harimtu”, ou “prostitutas”.

Algum tempo atrás, Wilhelm descobriu um documento legal fascinante. Ele tem cerca de 3.300 anos e reconta como um homem entregou sua própria filha ao Templo de Ishtar, para servir como harimtu. Segundo o documento, o homem queria um empréstimo dos sacerdotes e estava oferecendo sua filha como garantia.

Mas o que exatamente a filha penhorada fez para seus novos empregadores? Wilhelm especula que a jovem trabalhava como prostituta, “mas fora do templo”.

Como evidência, o professor cita o “Livro de Baruc” no Velho Testamento. Ele descreve as prostitutas “à beira do caminho” entra as casas da Babilônia. Elas também estavam de alguma forma associadas à organização sagrada.

Uma disputa acadêmica
Os céticos não aceitam nada disso. Harimtu não significa prostituta, diz Julia Assante, a acadêmica de estudos de gênero. Ela alega que os assiriólogos simplesmente traduziram a palavra incorretamente há 150 anos.

Em vez disso, diz Assante, a palavra se refere a “mulher solteira”, que servia como representante do culto e não fazia parte de um lar masculino. Os adversários de Assante fazem careta diante de sua interpretação, acusando-a de transferir seu próprio status social à era pré-cristã.

Sua reinterpretação da palavra harimtu não faz sentido semântico, diz o historiador econômico Morris Silver. Ele insiste que as harimtu eram claramente “prostitutas profissionais com conexões cultistas”, que ofereciam um “serviço sexual” em prol do templo. Os sacerdotes atuavam como cafetões e coletavam parte dos lucros.

Esses bordéis sagrados provavelmente também existiam na Grécia, especificamente no Templo de Afrodite, em Corinto, como acreditam os acadêmicos. Ele ficava empoleirado em uma escarpa rochosa a 575 metros acima do nível do mar.

Profissionais do sexo, vestidos tênues, maquiagem chamativa
É incontestável que a cidade em si era um lugar ruidoso. Corinto era um centro de comércio marítimo, com centenas de navios ancorados em suas docas. Profissionais do sexo, usando vestidos tênues e maquiagem chamativa, ficavam espalhadas pelo cais oferecendo seus encantos.

Mas o templo da deusa do amor, no alto do penhasco, também parece ter sido um centro de atividade sexual. “O Templo de Afrodite era tão rico que possuía mais de mil escravos e cortesãs”, escreve Strabo.

Hordas de marinheiros e capitães do mar, “famintos por sexo”, escalavam até o templo no penhasco, diz o acadêmico britânico Nigel Spivey.

Tanja Scheer, uma professora de história antiga da Universidade de Oldenburg, no norte da Alemanha, agora propõe uma solução melhor: “Os relatos de um bordel sagrado em Corinto são todos baseados em uma ode de Pindar”, ela explica. Pindar escreve que um rico campeão olímpico dedicou o templo cem prostitutas em 464 a.C.

Mas, como Scheer aponta, é improvável que as prostitutas se deitassem diretamente no altar. Em vez disso, ela diz, o rico atleta provavelmente ofereceu assistência financeira ao templo, na forma de escravas. “A receita da venda de seus corpos poderia servir como fonte regular e constante de renda para o templo.”

A teoria de Scheer é apoiada pelo fato de que o estadista ateniense Sólon, que estabeleceu casas de prazer do governo em Atenas por volta de 590 a.C., cobrava impostos das prostitutas. A cidade usou a receita para construir um templo à deusa do amor.

Como revela um fragmento de uma velha comédia, garotas muito jovens aparentemente viviam no bordel. O texto descreve as “crias” de Afrodite em pé, nuas, em uma fila, e nota: “Delas, de forma constante e segura, é possível comprar prazer por uma pequena moeda”. Também é possível que as coisas fossem muito pior para as crianças prostitutas no mundo antigo. Alguns acadêmicos especulam que pode ter ocorrido muito sexo sagrado entre crianças.

Novamente, a trilha leva à Babilônia e sua torre em forma de pirâmide, com 91 metros, uma das maravilhas do mundo antigo. Segundo algumas fontes, havia um templo no topo da torre que continha uma cama, onde uma garota escolhida dormia à noite, preparada constantemente para um “casamento sagrado” –um ato sexual simbólico com o deus Marduk.

Abuso de crianças no Nilo?
Distante dali, no principal templo em Tebas, na terra dos faraós, havia uma “consorte divina de Amon”.

Este sacerdócio era ocupado por “uma dama da maior beleza e da mais ilustre família”, escreve Strabo, “e ela se prostituía, coabitando com quaisquer homens que desejasse até que a limpeza natural de seu corpo ocorresse” (menstruação).

Há muitas pistas históricas que levam à especulação entre os acadêmicos, particularmente agora que um novo documento tem alimentado ainda mais o debate.

É um fragmento puído de um pergaminho egípcio, que também trata do assunto das jovens sacerdotisas.

Segundo o texto, as garotas eram autorizadas a trabalhar no templo até sua primeira menstruação. Depois disso, entretanto, “elas são afastadas de seus deveres”.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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