Escândalo de abuso sexual na Alemanha chega mais próximo do papa

Nicholas Kulish e Katrin Bennhold
Em Munique (Alemanha)
George El Khouri Andolfato
Do UOL

O futuro papa Bento 16 estava bem mais informado sobre o caso de abuso sexual na Alemanha do que as declarações anteriores da Igreja sugeriam, levando a novos questionamentos sobre a forma como lidou com um escândalo que se desdobrava sob sua supervisão direta, antes dele ascender ao topo da hierarquia da Igreja.

O cardeal Joseph Ratzinger, o futuro papa e arcebispo de Munique na época, recebeu um memorando que o informava que um padre, que ele aprovou ser enviado para terapia em 1980 para superar a pedofilia, retornaria ao trabalho pastoral apenas dias após o início do tratamento psiquiátrico. O padre foi posteriormente condenado por molestar meninos em outra paróquia.

Uma declaração inicial sobre o assunto, emitida neste mês pela Arquidiocese de Munique e Freising, depositava a responsabilidade plena pela decisão de permitir que o padre retomasse seus deveres ao vice de Ratzinger, o padre Gerhard Gruber. Mas o memorando, cuja existência foi confirmada por dois membros da Igreja, mostra que o futuro papa não apenas liderou uma reunião em 15 de janeiro de 1980, aprovando a transferência do padre, como também foi mantido informado sobre o retorno do padre às atividades.

Que papel ele exerceu na tomada de decisão e quanto interesse ele demonstrou pelo caso do padre com problemas, que molestou múltiplos meninos em seu cargo anterior, permanece incerto. Mas o chefe de pessoal que cuidou do assunto desde o início, o padre Friedrich Fahr, “sempre manteve uma ligação pessoal, excepcional” com Ratzinger, disse a Igreja.

O caso do padre alemão, Peter Hullermann, ganhou nova relevância porque ocorreu na época em que Ratzinger, que posteriormente foi encarregado de lidar em nome do Vaticano com milhares de casos de abuso, estava em posição de encaminhar o padre para ser processado, ou pelo menos impedi-lo de voltar a ter contato com crianças. A Arquidiocese alemã reconheceu que “grandes erros” foram cometidos na forma de lidar com Hullermann, apesar de ter atribuído esses erros a pessoas subalternas de Ratzinger, e não ao próprio cardeal.

Representantes da Igreja defenderam Bento 16 dizendo que o memorando era rotineiro e “dificilmente chegou à mesa do arcebispo”, segundo o padre Lorenz Wolf, o vigário judicial da Arquidiocese de Munique. Mas Wolf disse não poder descartar que Ratzinger o tenha lido.

Wolf falou com Gruber nesta semana a pedido do “New York Times”. Segundo Wolf, Gruber, o ex-vigário geral, disse que não conseguia se lembrar de uma conversa detalhada com Ratzinger a respeito de Hullermann, mas que Gruber se recusava a descartar que “o nome tenha sido mencionado”.

Bento era conhecido por lidar com os casos de abusos por padres no Vaticano antes de se tornar papa. Apesar de alguns terem criticado seu papel no tratamento desses casos ao longo das últimas duas décadas, ele também foi elogiado pelos defensores das vítimas por levar o assunto mais a sério, pedindo desculpas às vítimas americanas em 2008.

A passagem do futuro papa por Munique, na história mais ampla de sua vida, até agora era vista como apenas um degrau na escada para o Vaticano. Mas este período em sua carreira recentemente passou a sofrer grande escrutínio –particularmente seis semanas decisivas de dezembro de 1979 a fevereiro de 1980.

Nesse breve período, como mostram uma revisão de cartas, minutas de reuniões e documentos de arquivos pessoais, Hullermann passou da desgraça e da suspensão de suas funções em Essen para um trabalho sem restrições como padre em Munique, apesar do fato de ter sido descrito na carta que pedia sua transferência como sendo um “perigo” potencial.

Em setembro de 1979, o capelão foi afastado de sua congregação após três casais de pais terem dito ao seu superior, o padre Norbert Essink, que ele tinha molestado seus filhos, acusações que ele não negou, segundo anotações feitas por seu superior e ainda presentes no arquivo pessoal de Hullermann em Essen.

Em 20 de dezembro de 1979, o chefe de pessoal de Munique, Fahr, recebeu um telefonema de seu par na Diocese de Essen, Klaus Malangre.

Não há um registro oficial da conversa entre eles, mas em uma carta para Fahr datada de 3 de janeiro, Malangre se referiu a ela como parte de um pedido formal para transferência de Hullermann para Munique, para que visitasse um psiquiatra lá.

O abuso sexual de meninos não é mencionado explicitamente na carta, mas as entrelinhas são claras. “Relatos da congregação na qual ele atuava nos deixaram cientes de que o capelão Hullermann representava um risco, nos fazendo afastá-lo imediatamente dos deveres pastorais”, dizia a carta. Ao apontar que “não há nenhum procedimento pendente contra o capelão Hullermann”, Malangre também comunicou que o perigo em questão era sério o bastante para ter consequências legais.

Ele fez outra indicação clara, ao sugerir que Hullermann podia ensinar religião “em uma escola de meninas”.

Em 9 de janeiro, Fahr preparou um resumo da situação para as autoridades da diocese, antes de sua reunião semanal, dizendo que um jovem capelão precisava de “tratamento médico psicoterapêutico em Munique” e um lugar para viver com “um colega compreensivo”. Fora isso, ele apresentou o padre de Essen em termos quase elogiosos, como um “homem muito talentoso, que poderia ser utilizado de várias formas”.

O papel de Fahr no caso recebeu pouca atenção até o momento, em comparação ao mea culpa de Gruber.

Wolf, que está atuando como consultor legal interno no caso de Hullermann, disse em uma entrevista nesta semana que Fahr foi o “filtro” de toda a informação envolvendo Hullermann. Ele também foi, segundo seu obituário no site de arquidiocese, um grande amigo de Ratzinger.

Um momento chave ocorreu na terça-feira, 15 de janeiro de 1980. Ratzinger presidiu a reunião do conselho da diocese naquela manhã. Seus bispos auxiliares e chefes de departamento se reuniram em uma sala de conferência no último andar do prédio administrativo do bispo, situado em um ex-mosteiro em uma rua estreita no centro de Munique.

Era um dia agitado, com a morte de cinco padres, a aquisição de uma peça de arte e cuidados pastorais em vietnamita para os imigrantes recentes entre as questões que dividiam a agenda com o item 5d, o assunto delicado do futuro de Hullermann.

As minutas da reunião não incluem referências às discussões de fato naquele dia, apenas declarando que um padre de Essen, necessitando de tratamento psiquiátrico, pedia acomodações em uma congregação de Munique. “O pedido foi concedido”, diz as minutas, estipulando que Hullermann viveria na Igreja de São João Batista, no norte da cidade.

Os representantes da Igreja dão um nome próprio para a linguagem nas minutas das reuniões, que são internas, mas circulam entre os secretários e outros membros da diocese, disse Wolf, que possui um arquivo digitalizado das minutas das reuniões, incluindo as da reunião de 15 de janeiro. “É linguagem protocolar”, ele disse. “Aqueles que sabem do que se trata entendem, aqueles que não, não sabem.”

Cinco dias depois, em 20 de janeiro, o gabinete de Ratzinger recebeu uma cópia do memorando de seu vigário geral, Gruber, devolvendo a Hullermann funções plenas, como confirmou um porta-voz da arquidiocese.

Hullermann retomou as atividades paroquiais praticamente ao chegar a Munique, em 1º de fevereiro de 1980. Ele foi condenado em 1986 por molestar meninos em outra paróquia da Baviera.

Nesta semana, novas acusações de abuso sexual surgiram, tanto de seu primeiro cargo em uma paróquia próxima de Essen, no norte da Alemanha, quanto de 1998, na cidade no sul da Alemanha de Garching an der Alz.

Fahr morreu há dois anos. Um porta-voz da diocese em Essen disse que Malangre não estava disponível para entrevista. Malangre, atualmente com 88 anos, sofreu recentemente um acidente e estava confuso e não confiável como testemunha, quando interrogado em uma investigação interna sobre o modo como o caso Hullermann foi tratado, disse o porta-voz, Ulrich Lota.

Gruber, que assumiu a responsabilidade pela decisão de devolver Hullermann a uma paróquia, não estava presente na reunião de 15 de janeiro, segundo Wolf, e não respondeu aos repetidos pedidos de entrevista.

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