Alá é o Deus Bíblico?

Do Ultimato
com comentários do Pr. Artur

Caverna no Monte Hira. Segundo a tradição islâmica, foi em uma caverna como essa que Maomé recebeu a revelação de que era um profeta, diretamente do arcanjo Gabriel.

O texto abaixo é de Marcos Amado, ex-missionário entre os muçulmanos e, atualmente, Pastor de uma Igreja Batista em São Paulo. Reproduzu-o na íntegra (foi publicado originalmente na Ultimato (ed. 320) e no site da editora – acesse aqui). Logo em seguida, teço minhas considerações!

“Esta é uma pergunta que tem inquietado muitos cristãos através dos séculos. Martinho Lutero, por exemplo, afirmava que Alá é Satanás. A resposta que dermos a essa questão terá grande influência na percepção que temos dos muçulmanos e, consequentemente, em nossa atitude em relação a eles. Além disso, se decidirmos que Alá não é Deus, mas sim uma divindade pagã, oriunda dos tempos em que a Arábia estava submersa no politeísmo, nossa tendência será rechaçar tudo o que o Alcorão menciona sobre Deus e concluir que os muçulmanos estão na mais absoluta escuridão em relação aos atributos do verdadeiro Deus. Se, pelo contrário, aceitarmos que Alá e o Deus cristão são a mesma pessoa, alguns dos conceitos que o Alcorão transmite sobre Deus poderiam ser usados como pontes para a comunicação do conceito bíblico de Deus.

A origem da palavra Alá
Na Arábia pré-islâmica, a palavra Alá (cuja transliteração do árabe seria melhor representada pela grafia “Allah”) era usada pelos habitantes de Meca como uma referência ao Deus criador, possivelmente a deidade suprema. Alá tinha associados e companheiros, considerados pelos árabes pré-islâmicos como divindades que se subordinavam a ele. A palavra Alá é, hoje, a palavra padrão para referir-se a Deus no idioma árabe. Além dos muçulmanos, os judeus que vivem em países árabes e os cristãos árabes usam a palavra Alá para referir-se ao Deus único, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Para os muçulmanos quem, em sua essência, é Alá?
A ideia central do islã é que existe um Deus, único e indivisível, e o nome muçulmano para esse Deus é Alá, assim como para os judeus é Elohim ou Javé. Alá é o todo poderoso, criador de um universo perfeito e organizado. O Alcorão diz que Alá está em todo lugar e “mais perto [do homem] do que a (sua) artéria jugular” (Sura 50.16).

Martin Whittingham faz um ótimo resumo sobre as principais características de Alá, conforme apresentadas no Alcorão:

“Único” — (42.11). Ele não tem um filho (18.4-5). Por ser único, não há nenhuma semelhança entre Deus e os seres humanos.

“Criador” — Ele é o único criador de todas as coisas, incluindo os seres humanos, o mundo, a natureza e os espíritos (7.179).

“Soberano” — A vontade de Deus é suprema em todas as coisas. Para muitos teólogos muçulmanos, esta é a principal característica de Alá.

“Revelador” — Deus envia essencialmente a mesma mensagem para uma sequência de profetas, mas principalmente para Maomé, que recebeu a revelação final.

“Amoroso”Ele ama os crentes (3.76), mas não ama os incrédulos (3.32). Porém, ele não é afetado de nenhuma maneira pelas pessoas, e seu amor não o faz sofrer. A humanidade precisa dele, mas ele não precisa de ninguém, nem se relaciona com ninguém.

“Perdoador” — “A Deus pertence tudo quando há nos céus e na terra. Perdoa a quem lhe apraz e castiga a quem deseja, porque Deus é indulgente, misericordiosíssimo” (3.129).

“Juiz” — haverá o dia do juízo final, quando Deus julgará a todos, enviando alguns para o paraíso e outros para o inferno. O resultado favorável deste julgamento depende das boas obras e de ser muçulmano.

Concepções diferentes sobre a mesma pessoa?

Montgomery Watt, em seu livro “Islam and Christianity Today — a contribution to dialogue” (O Islã e o Cristianismo Hoje — uma contribuição ao diálogo), sugere, no capítulo em que trata sobre os nomes e atributos de Deus no islã e no cristianismo, uma abordagem interessante que talvez nos ajude a encontrar um ponto de equilíbrio neste tema tão complexo. Watt faz uma analogia com o casamento e menciona que, quando duas pessoas se casam, elas possuem uma determinada concepção um do outro. Vinte anos depois esta concepção certamente será diferente, pois se conhecerão muito melhor. Porém, continuam sendo as mesmas pessoas apesar de as concepções terem sido alteradas com o tempo. Quando olhamos os atributos de Alá, conforme a concepção islâmica mencionada acima, vemos que há um grande número de atributos que coincidem com as convicções cristãs sobre o tema.

No entanto, existem diferenças! A implicação do que Watt está sugerindo é óbvia: as diferenças existentes entre a concepção muçulmana e cristã sobre Deus não faz com que Deus e Alá sejam dois seres diferentes; faz, simplesmente, com que o seguidor de cada uma destas religiões tenha, em alguns aspectos, uma percepção diferente do Deus único e criador, que pode ser chamado de Deus, Yahweh ou Alá. Talvez o exemplo da concepção que Saulo tinha de Jeová, o Deus único e criador, antes do encontro com o Cristo ressurreto, e a concepção que passou a ter de Deus depois deste acontecimento, possa dar-nos alguma luz. Antes de seu encontro com Cristo, Saulo já era um homem que temia ao Deus verdadeiro, conforme a compreensão que ele tinha como resultado de seus estudos e reflexões das escrituras do Antigo Testamento.

Como consequência destas convicções de quem Deus era e do que este mesmo Deus esperava dele, Saulo maltratava e perseguia os cristãos crendo que estava fazendo a vontade de Deus, consentia na morte de cristãos e acreditava que, se fosse necessário, deveria matar para realizar a vontade de Deus — exatamente da mesma forma que os muçulmanos creem hoje! Ao mesmo tempo, antes de sua conversão, Saulo cria que Deus era um Deus onipotente, onipresente, onisciente, santo, perdoador, transcendente, único, eterno, perfeito, soberano, generoso, misericordioso, bondoso, fiel etc., assim como os muçulmanos de hoje. Ainda assim, Saulo não cria que Deus é um Deus Trino, que tinha um filho, que por meio de Jesus reconciliou consigo mesmo todas as coisas, que estabeleceu a paz por meio do sangue de Cristo e que nos deu vida com Cristo quando ainda estávamos mortos em transgressões.

Tampouco os muçulmanos creem. Além de tudo isso, Saulo não cria que Jesus é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação, que todas as coisas foram criadas por ele e para ele, que nele habita toda a plenitude e que Cristo morreu na cruz para o perdão de pecados. Obviamente, todos nós sabemos que os muçulmanos estariam totalmente de acordo com Saulo nestes pontos. Porém (e graças a Deus há um porém!), a partir do encontro de Saulo com o Cristo ressurreto no caminho de Damasco, a concepção que Saulo tinha acerca de Deus sofreu uma transição radical. Ele tinha, em muitos aspectos, uma concepção correta sobre Deus, mas em outros, estava totalmente equivocado. No entanto, nem por isto dizemos que Saulo adorava outro Deus.

O que aconteceu foi que, a partir do seu encontro com Cristo, a percepção dele foi transformada e a concepção dele foi corrigida e ampliada. Ele finalmente pode ver e entender quem Deus realmente é. Será que nós, cristãos, deveríamos dizer que Alá e Deus são dois seres diferentes? Ou será que devemos entender que a concepção muçulmana de Deus possui noções corretas e outras equivocadas, mas que, assim como Saulo, eles poderão, a partir do conhecimento que já possuem, ter sua concepção sobre Alá corrigida e ampliada a partir de um encontro pessoal com o Cristo ressurreto?”.

Miniatura persa que ilustra a "ascenção de Maomé", em 632 d.C. Muitos islâmicos realmente acreditam que Maomé foi assunto aos céus neste ano, direto do "Monte do Templo", em Jerusalém. Sabe-se, porém, através de outros registros históricos, que o precursor do Islamismo morreu em Medina.

Considerações: Alá é realmente o Deus bíblico?
Apesar de conceitualmente equilibrado, discordo de um ponto fundamental do texto de Marcos Amado. A perspectiva incorreta de Saulo não pode ser equiparada à dos islâmicos, pois partem de referenciais essencialmente diferentes. O referencial de Saulo de Tarso, antes de vir a ser chamado de “Paulo, apóstolo”, era ele mesmo. Se as Escrituras Sagradas testemunham de Jesus, e assim o faziam, eram os próprios fariseus e saduceus que haviam criado “um messias à sua própria imagem e semelhança”, algo inexistente ante o padrão bíblico. Jesus havia alertado as autoridades religiodas judaicas sobre esta distorção de perspectiva: “Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” é o que é dito aos saduceus (que não criam em espíritos, anjos, demônios ou na ressurreição), no evangelho de Mateus, 22:29. Sua perspectiva conceitual do Messias estava distorcida por suas próprias considerações, que, obviamente, desconsideravam o que diziam as Escrituras. Isto é dito claramente, por Jesus, no evangelho de João, 5:45-47: “Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras?”.

O padrão islâmico, por sua vez, é bastante diferente. Enquanto a distorção de perspectiva messiânica, no caso dos saduceus e fariseus como Paulo, ia de sua própria perspectiva à Bíblia, o dos islâmicos vai do Corão à fundamentação de sua perspectiva. Os islâmicos NÃO impingem sua perspectiva no Corão, mas retiram dele a base daquilo em que creem. O próprio autor do texto acima revela, a partir de textos do Corão, como este “revela” o quanto e como esta divindade é se revela diferente do Deus bíblico. Não se pode reduzir a questão apenas a um viés antropológico sem sacrificarmos a questão principal, o referencial teológico de ambas as crenças. Como, então, Alá poderia ser o mesmo Deus bíblico se a base de sua revelação maior, para os islâmicos, é o Corão, que justamente o mostra fundamentalmente diferente do Deus bíblico? Creio que o fervor missiológico afetou as conclusões do autor do texto, o qual reduziu toda a problemática a um “singelo erro de perspectiva histórico”.

Assim como os Judeus, com o Antigo Testamento, e os Cristãos, com toda a Bíblia (AT e NT), os islâmicos veem o Corão como “a Palavra de Deus”. E, se o Corão é a revelação maior de Deus, contém verdades que, para eles, são inelutáveis. Alguém poderia dizer que a perspectiva bíblica – isto é, de personagens bíblicos -, sobre Deus “varia”, progride, evolui com o tempo, afinal, a Biblia foi feita em um período de aproximadamente 1.500 anos. É justamente aí que consiste um outro problema em relação ao Corão: segundo creem os islâmicos, todo o livro foi revelado a Maomé e, portanto, toda a sua confecção se deu no período de vida de Maomé. Esta base, que é a mesma para as ramificações posteriores, que têm mais diferenciações políticas do que religiosas, não pode ser comparada à Bíblia, mais especificamente ao conceito de “progressividade revelacional”. Deus inicia sua revelação na aurora da humanidade e a consuma, plenamente, na própria pessoa de Jesus Cristo, chamado em João de “Filho ´unigênito´” (João 1:14, ou ´monogenos´ – no grego), que possui uma profunda implicação teológica, muito mais do que simples léxico-sintática. Isto porque, em todo o evangelho de João, vê-se uma tentativa, na narrativa, de associar Jesus aos seus atritubutos divinos, como a preexistência: “Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo”. (17:4-5).

Lembremo-nos de que Maomé, segundo historiadores, foi a Jerusalém (quando andava em caravanas comerciais com seu pai, rumo a Tiro), teve contato com as Escrituras judaico-cristãos (Maomé é do século VI d.C.), mas rejeitou-as fundamentalmente, quando mostrou “revelações” que se contradizem substancialmente com as Escrituras. Vejamos o que o Corão diz, de fato, sobre a crença judaico-cristã e sobre Jesus (Isah, segundo o livro islâmico):

“Deus! Não há mais divindade além d’Ele, o Vivente, o Subsistente. Ele te revelou (ó Mohammad) o Livro (paulatinamente) com a verdade corroborante dos anteriores, assim como havia revelado a Torá e o Evangelho, Anteriormente, para servir de orientação aos humanos, e relevou ainda o Discernimento (julgamento entre o bem e o mal).” – Alcorão, Surata 3:3-4.

Falando acerca de Cristo, Maomé afirma que Jesus disse o que lhe fora revelado:

“Ele lhes disse: Sou o servo de Deus, o Qual me concedeu o Livro e me designou como profeta. Fez-me abençoado onde quer que eu esteja, e me encomendou a oração e (a paga do) zakat enquanto eu viver. E me fez piedoso para com a minha mãe, não permitindo que eu seja arrogante ou rebelde. A paz está comigo, desde o dia em que nasci; estará comigo no dia em que eu morrer, bem como no dia em que eu for ressuscitado. Este é Jesus, filho de Maria; é a pura verdade, da qual duvidam. É inadmissível que Deus tenha tido um filho. Glorificado seja! Quando decide uma coisa, basta-lhe dizer: Seja!, e é.” —Alcorão, Surata 19:30-35.

A bandeira da Arábia Saudia sendo levada pela delegação árabe, nas últimas olimpíadas. Sua inscrição significa: "Somente Alá é Deus e Maomé o seu Profeta".
A bandeira da Arábia Saudia sendo levada pela delegação árabe, nas últimas olimpíadas. Sua inscrição significa: “Somente Alá é Deus e Maomé o seu Profeta”.

Apesar de, curiosamente, abordar o aspecto da ressurreição de Cristo, o Corão afirma que Jesus dissera que Deus não tem um filho, posto que isto era inadmissível, assim, Jesus seria o fruto de uma ordenança divina, um dito e criado a partir dali. Toda a cristologia fica, portanto, fundamentalmente comprometida e, assim, a própria perspectiva de Deus. Se se desconsidera a doutrina de Deus conforme rezam as Escrituras, desconsidera-se a revelação bíblica, e se foi Alá quem assim revelou a Maomé – através do anjo Gabriel -, então, pelo que foi dito anteriormente, esta fonte estaria em choque com o aquilo que está escrito na Bíblia! Se é a partir daquela revelação, ou seja, o Corão, que o islâmico baseia sua fé, então Alá não é o Deus da Bíblia, uma vez que tais “revelações” estão diametralmente opostas.

Entendo o fervor missionário em prol dos islâmicos, e creio que eles, como qualquer outro povo, não podem ser tolhidos do DIREITO DE OUVIR A MENSAGEM DO EVANGELHO, cabendo sobre a si a aceitação ou não da mensagem; não de ONG´s, da ONU, de seus líderes déspotas ou de qualquer indivíduo que se ponha a pensar pelo outro. O direito de ouvir a mensagem, lidar com as contradições e, finalmente, emitir uma conclusão, é do próprio indivíduo, e tal direito é inalienável!!! Contudo, não podemos justificar “pontes” entre o cristianismo bíblico e as bases doutrinárias de outras religiões quando, de fato, elas não existem. Sei que podemos usar “pontos de contato”, práticas e crenças que são comuns entre tipos de fé heterodoxas e a cristã – vide o livro “O Fator Melquisedeque”, de Don Richardson), mas não creio ser esse o caso entre Alá e o Deus bíblico. Josh MacDowell afirma no livro “Ele Andou Entre Nós – Evidencias do Jesus Histórico” que um dos maiores problemas na comunicação do Evangelho aos árabes muçulmanos é a teimosia dos ocidentais em não aprender o árabe. É verdade. Se estamos querendo comunicar o Evangelho aos árabes, precisamos aprender profundamente aspectos de sua cultura, cosmovisão, etc. E, penso, uma maneira de construirmos um diálogo franco e aberto com muitos árabes muçulmanos (e muçulmanos em geral) é aprendermos o que dizem, de fato, seu escrito sagrado e as principais interpretações do mesmo. Como bons comentaristas podemos, respeitosa mas sinceramente, apresentar-lhes os equívocos históricos e teológicos de sua crença, e apresentar-lhes as reais correspondências com o Evangelho, lutando, acima de tudo, por seu inalienável direito de acesso à informação, às vezes mal compreendido por eles mesmos!

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