O apologista William L. Craig responde a perguntas acerca da ressurreição de Jesus e a glorificação

Traduzido por Michele Barreto
Adaptado pelo Pr. Artur Eduardo

 
Como coadunar a ressurreição de Jesus Cristo (corpórea) com o conceito de incorruptibilidade?

Pergunta 1:

Olá! Eu estava me perguntando se você poderia esclarecer um pequeno enigma. Em I Coríntios 15, Paulo explica que carne ou sangue não podem herdar o reino de Deus. Como, então, se Jesus ressuscitou em carne, ele foi estar com o Pai no céu após a ressurreição? Obrigado por sua atenção.

Pergunta 2:

Prezado Dr. Craig,

Eu tenho apenas uma pergunta simples para a qual não sei a resposta e talvez uma questão que a maioria dos cristãos sequer pensou a respeito ou achou importante o bastante para pesquisar a resposta. No entanto, eu a considero importante por causa de como nós vemos a ressurreição e os corpos ressurretos.

Após a ressurreição de Jesus, Ele comeu com Seus discípulos, e Tomé pôde tocar em suas feridas.

Se Jesus voltou à existência como Deus, como Seu corpo ainda se relaciona com o nosso de forma que possamos abraçá-lo, mais a capacidade material de digerir alimentos? No fim dos tempos, quando formos participar do Grande Banquete, qual será o estado dos nossos corpos após a nossa ressurreição?

Atenciosamente,
Kirk

Dr. William Lane Craig responde:

Vocês dois levantaram uma questão importante – e de se esperar- do meu debate com Richard Carrier este mês no Nordeste do estado do Missouri. Carrier adota a linha, muito repetida na teologia Protestante liberal, que Paulo não acreditava em um corpo de ressurreição físico, mas em um “corpo espiritual”, que é, digamos, um “corpo” pontual, imaterial, intangível e sem massa. Na hipótese de que Paulo é nossa testemunha mais atual da crença na ressurreição de Jesus, Paulo é colocado contra as narrativas dos Evangelhos sobre o túmulo vazio e as aparições de Cristo ressuscitado. A visão de Paulo é considerada como a crença primitiva e os Evangelhos representam o resultado da lendária corrupção e reforma teológica da tradição primitiva.

Mostrou-se , porém, que esta tentativa de colocar Paulo contra os Evangelhos vem de uma análise distorcida. Todos reconhecem que Paulo não ensina a imortalidade da alma sozinha, mas a ressurreição do corpo. Contudo, é extraordinariamente difícil conceber qual é a diferença entre a imortalidade da alma e a existência de um “corpo” pontual, imaterial, intangível e sem massa. Em I Coríntios 15: 42-44, Paulo descreve as diferenças entre nosso corpo terrestre, presente e nosso corpo futuro, corpo ressurreto, que será como o de Cristo. Ele designa quatro contrastes essenciais entre o corpo terreno e o corpo ressurreto:

O corpo terreno é: Mas o corpo ressurreto é:
mortal imortal
impuro glorioso
fraco poderoso
natural espiritual

Agora apenas o último contraste pode nos levar a pensar que Paulo não acreditava em um corpo de ressurreição física. Mas o que ele quer dizer com as palavras traduzidas aqui como “natural/ espiritual”? A palavra traduzida “natural” (psychikos) literalmente significa “almado”. Agora, obviamente, Paulo não quer dizer que nosso corpo presente é feito de alma. Em vez disso, com esta palavra ele quer dizer “dominado por ou pertencente à natureza humana”. Semelhantemente, quando ele diz que o corpo ressurreto será “espiritual” (pneumatikos), ele não quer dizer “feito de espírito”. Em vez disso, ele quer dizer “dominado por ou orientado segundo o Espírito”. É semelhante o sentido da palavra “espiritual” como quando dizemos, por exemplo, que Billy Graham é uma pessoa espiritual. Na verdade, veja a maneira como Paulo usa estas mesmas palavras em I Coríntios 2:14:15:

“Ora, o “homem natural” (“anthropos psychikos”) não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. Mas o que é “espiritual” (“pneumatikos”) discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido”.

Homem natural não significa “homem físico”, mas “homem orientado segundo a natureza humana”. Homem espiritual não significa “homem intangível, imaterial”, mas “homem orientado segundo o Espírito”. O contraste é o mesmo em I Coríntios 15. O corpo terreno, presente, será liberto de sua escravidão pela natureza pecadora humana e, por outro lado, será completamente cheio de poder e direcionado pelo Espírito de Deus.

A vasta maioria de estudantes contemporâneos de Paulo conclui, portanto, que Paulo acreditava em um corpo ressurreto físico (que, portanto, implicou no túmulo vazio. Em sua recente dissertação de Doutorado “A Historicidade da Ressurreição de Jesus” (2008), Michael Licona lista Ackerman, Barnett, Barrett, Bostock, Brodeur, Collins, Conzelman, Fee, Gundry, Harris, Hayes, Héring, Hurtado, Johnson, Kistemaker, Lockwood, Martin, Segal, Snyder, Thiselton, Witherington, e Wright.

Mas, e quanto à I Coríntios 15:50:

“Carne ou sangue não poderá (n.b. verbo no singular) herdar o Reino de Deus”? isto não indica que o corpo ressurreto deve ser imaterial? Não mesmo. Praticamente todos os comentadores reconhecem que a expressão “carne e sangue” é uma típica expressão semítica que indica nossa frágil natureza humana. Em outra passagem Paulo usa a expressão significando “criaturas mortais” (Efésios 6:12) ou mesmo apenas “pessoas” (Gálatas 1:16). Portanto, a segunda metade do versículo completa a primeira: “nem o corruptível pode herdar a incorruptibilidade”. O corpo presente deve ser liberto de sua corruptibilidade -não de sua materialidade- a fim de estar pronto para o eterno domínio de Deus.

Carrier admite que o termo é uma expressão idiomática, mas insiste que a expressão não seria adequada se o corpo ressurreto ainda fosse de carne. Porém, pensar assim é não entender como as expressões e metáforas funcionam. Seu sentido não pode ser resumido aos significados literais de suas palavras constituintes. Analise: “está caindo um pé d’água!”. Seria um total mal-entendido tomar tal expressão implicando que deve haver literalmente um pé de água na rua. Desta forma, Paulo não está falando sobre carne e sangue físicos, mas sobre nossa natureza humana mortal.

Então, como devemos entender o corpo ressuscitado de Cristo hoje? Cristo exaltado ainda tem uma natureza humana; ele não “voltou a ter a existência em forma divina”. Entretanto, Cristo saiu deste continuum espaço-tempo quadridimensional. Logo, talvez nós devemos dizer que esta natureza humana não se manifesta agora corporalmente. Compare a situação: você bate um diapasão numa superfície; ele vibra e soa. Se ele for colocado em um recipiente fechado a vácuo, apesar de continuar a vibrar, ele não se manifesta com o som peculiar, porque não há um meio condutor das vibrações. Assim também, a natureza humana de Cristo, não mais imersa no tempo-espaço, não se manifesta como um corpo. Só que algum dia Cristo voltará e entrará novamente no continuum espaço-tempo quadridimensional e, então, seu corpo se manifestará. No novo Céu e na nova Terra, Cristo estará presente em corpo para o seu povo. Cristo, pois, tem uma natureza humana que se manifesta como seu corpo ressurreto físico quando ele estiver no universo espaço-temporal.

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