“A crença na crença”… e a crença nisto tudo

Do blog Pr. Artur

A incredulidade de Tomé, de Caravaggio, ilustrando algo sobre o quê a Bíblia não tem reservas: mostrar as angústias, frustrações ou dúvidas de alguns acerca dos quais é relatado algo - mesmo que o tal seja um dos patriarcas, reis, profetas ou apóstolos! Para você, isto aumenta ou diminui a força da historicidade da narrativa bíblica? Tem dúvida? Então leia os textos do Clemente Nogueira, e, posterirmente, o nosso ponto de vista.

A incredulidade de Tomé, de Caravaggio, ilustrando algo sobre o quê a Bíblia não tem reservas: mostrar as angústias, frustrações ou dúvidas de alguns acerca dos quais é relatado algo - mesmo que o tal seja um dos patriarcas, reis, profetas ou apóstolos! Para você, isto aumenta ou diminui a força da historicidade da narrativa bíblica? Tem dúvida? Então leia os textos do Clemente Nogueira, e, posterirmente, o nosso ponto de vista.

“O filósofo americano Daniel Dennett cunhou uma expresssão da qual me tornei fã: crença na crença – (belief in belief). A expressão é boa, e a realidade que ela descreve é mais interessante ainda. Seguinte: trata-se da necessidade de crermos em algo independentemente desse algo ser verdade ou não. Ou, muito mais sério , de continuarmos a crer mesmo sabendo que não é verdade!
Cremos porque queremos crer. A verdade “verdadeira” não tem apelo , só aquela que fabricamos. Suspeito que essa é a razão para a mentalidade científica não ser popular e ceticismo e racionalidade serem desprezados. Não são comerciais. Qualquer “sentimento” faz mais sucesso que um fato.

A primeira vez que me deparei com essa idéia foi num livro de Michael Schermer, um cético americano (eu acho) -”Por que as pessoas acreditam em coisas esquisitas” -(”Why people believe in weird things”). Ele conta que foi a uma palestra de um suposto paranormal que se comunicava com mortos e mandava mensagens para seus familiares. Fim da palestra , teatro lotado, Schermer subiu ao palco e mostrou como a performance tinha sido fraude do início ao fim. Desmascarou o cara. A platéia não reagiu no início. Depois vaiou. Depois quis agredí-lo. Ele teve de sair protegido.

Uma senhora aproximou-se dele: ”pode ser falso, mas se não acreditarmos nisso acreditaremos em quê?”

Belief in belief. Aprendi que essa é uma atitude muito mais comum do que eu pensava – a verdade não é combustível suficiente para funcionarmos no dia-a-dia.

No seu livro “Why Darwinism is True” – Jerry Coyne fala da mesam coisa. Coyne é um especialista em evolução das espécies e autor do melhor livro sobre o tema (até agora). Seu livro traz provas cabais, irrefutáveis, definitivas, avassaladoras da verdade da evolução. Ele conta que em suas palestras (para gente auto- intitulada ”sofisticada”) alguém sempre se aproxima dele no final com o mesmo papo: ”Parabéns. Suas evidências são realmente irrefutáveis, mas eu prefiro continuar com minha visão de que o mundo e as criaturas são obra de um Deus que seguiu um plano em sete dias”. Ou seja: ”eu quero crer na minha crença, não me amole com a verdade“.

Richard Dawkins compara essa mentalidade com a de um cientista de verdade, que vibra e aplaude quando alguém refuta uma teoria (que se acreditava verdadeira) com base em evidência nova. Ciência é melhor do que ignorância , mas não “pega” nem dá IBOPE – preferimos “crer na crença”.

O mundo empresarial está cheio disso. O sucesso continuado dos Tom Peters e Jim Collins da vida, é fruto de “crença na crença“. Seus livros foram demonstrados falsos. Seus exemplos de empresas “excelentes” ou “great” foram desmoralizados por fatos. Seus conceitos de liderança são postos por terra todo dia. Suas desculpas depois que algum fato nega suas afirmações, são patéticas… mas continuam a encher auditórios e a faturar milhões. Não tem problema não dizerem a verdade. Nós cremos em crer. Acreditamos que crer neles é bom. Se não, afinal, vamos acreditar em quê?”.

Texto de Clemente Nobrega, pesquisador de gestão e estratégia e colunista da Época Negócios).
É interessante como o texto é, com certeza, uma referência indireta à crença cristã. Digo isto, não por inferir com um sentimento de alguém “doído”, mas pelo fato de o autor viver em um país “cristianizado” (ainda que não seja majoritariamente “cristão”) e, como todo e bom cético, lutar principalmente pela maior expressão de crença que o rodeia. Isto permeou todos os céticos da História, de quem nós temos notícia. Isto foi fato com céticos gregos, os das Idades Antiga e Média, e os da Idade Moderna. Por que seria diferente com os pós-modernos? Não, não seria.

Dito isso, atenho-me, agora, aos motivos de discordar do autor em relação à óbvia generalização que o mesmo faz quando fala em crença. Primeiro, há crenças e crenças. Talvez o autor não saiba (não sei se tem formação filosófica), mas quando sei de algo, inerentemente creio naquilo. Se vejo o monitor diante do qual escrevo e vejo aparecer os caracteres digitados no teclado, preciso crer que estou vendo. Em última análise, é impossível dissociar nossos sentidos da crença de que estamos tendo qualquer tipo de conhecimento através dos mesmos. Hume, o eminente cético inglês, foi um dos que (pelo afã iluminista dos seus dias) tentou, ao mesmo tempo, minimizar o conhecimento que temos através dos sentidos, afirmando que eles são o melhor que temos e que, a despeito de tudo, temos de nos fiar nos mesmos.

A problemática sobre o que Hume suscitou à reflexão só é um problema, de fato (e o pior é que tem sido!), se tomarmos tudo o que ele disse por verdade. Observe: Quem me garante que não tenho um conhecimento transcendente, ontológico, necessário sobre Deus, por exemplo… e que isto é fato? Hume? Baseado em quê? Digo em quê: em uma fortaleza criada pelo pensamento cético, que solapa qualquer tentativa de sair da mesma, numa surpreendente volta à caverna do mito de Platão. E o pior, é que o apelo moderno para a descrença (e a “crença na descrença”) é a formulação da ideia de que todas as impressões que temos se nos advém dos sentidos, sofisticando-se e abstraindo-se, formando ideias…..falsas! “Isto” é Deus, por exemplo, para Hume e seus seguidores. Mas, outra vez pergunto: quem me garante que tal pensamento é fidedigno? Hume? Então tenho de “crer” nisto. E crer que minha crença está baseada em algo correto. Em resumo, creio na crença de que o pensamento cético é o correto. O que se aplica à crença em Deus, por exemplo, aplica-se tranquilamente à mais célebre proposta do ceticismo, desde a modernidade.

Evidências históricas
Como tudo é, basicamente, “crer na crença” (Dennet não merece nem o prêmio de um vencedor de liga de dominó… outros filósofos já falavam acerca disto muito antes dele), então temos que observar se a nossa primeira “crença” satisfaz o crivo de nossa razão. Razão e crença andam juntas; e não poderia deixar de ser, posto que é através da correta harmonia destes dois princípios que o fundamento de todo o conhecimento é construído. É preciso “crer” nas constantes das fórmulas matemáticas (concebidas pela interpretação da razão) afim de que máquinas e edifícios sejam feitos, o que seria impossível do contrário. Desta maneira, é necessário que as crenças sejam analisadas pela razão… e que a razão coadune-se, imediatamente, à crença, para que algo seja tido por conhecimento. Alie-se a isto o fato de que é preciso que tenhamos as evidências, sobre as quais o conhecimento se constroi, bem analisadas e, na medida do possível, testadas. Não se pode fazer isto com todos os aspectos do Cristianismo, como a comprovação dos milagres feitos por Jesus, por exemplo; mas podemos avançar, e muito, quando estudamos aspectos testáveis da base do Cristianismo: a historicidade e aspectos da literatura bíblica.

Que evidências da Bíblia podem ser comprovadas e, se for o caso, refutadas?

Estamos falando de ciência, aqui, e há vários campos científicos que podem comentar algo sobre a Bíblia. O primeiro é o histórico. A historicidade bíblica vem sendo comprovada desde os primórdios da Arqueologia Bíblica, no século XIX. Cidades, templos, construções e até personalidades citadas na Bíblia vêm tendo sua historicidade autenticada pelas pesquisas arqueológicas de campo. Hoje, a Arqueologia Bíblica é uma ciência tão desenvolvida, que já tem livros próprios, especializações acadêmicas e um imensurável número de evidências descobertas, dia a dia, corroborando as histórias narradas na Bíblia.

Touro alado de Nínive, capital dos assírios, um dos povos mais mencionados em alguns livros bíblicos. Até meados do século XIX, muito se debatia sobre a historicidade de Nínive. Bem, hoje não se fala mais no caso.

"Touro alado" de Nínive, capital dos assírios, um dos povos mais mencionados em alguns livros bíblicos. Até meados do século XIX, muito se debatia sobre a historicidade de Nínive. Bem, hoje não se fala mais no caso.

Um ponto curioso acerca da historicidade da Bíblia: diferentemente dos relatos de outros povos, os quais mostram seus reis sempre de maneira proeminente, vencedores, estereótipos de perfeição, a Bíblia mostra, em suas crônicas, algo diferente. Tanto os livros dos Reis como os das Crônicas mostram reis falhos, humanos, obedientes ou desobedientes à Lei de Deus. Inclusive, atos horrendos de alguns destes reis são mencionados em tais livros, mostrando que o padrão de piedade judaica não isentava as pessoas por causa dos seus ofícios, por mais embaraçosas que fossem suas condutas e mesmo que estas viessem a denegrir a imagem de toda a nação judaica! Isto é muito significativo e, com certeza, aumenta ainda mais a historicidade da Bíblia. Outros livros religiosos, quando contém histórias, são, no máximo, muito “econômicos” ao relatarem quaisquer defeitos de seus principais protagonistas. É caso de heróis do mundo antigo. A solução grega para os deuses-heróis de seus mitos foi “humanizá-los” através de casamentos mistos, ou apresentá-los com características tão prementemente humanas que ficava difícil, para um grego médio que ousasse pensar um pouco mais sobre a profusão de deuses que o cercava e as personalidades de cada um, que os mesmos tinham, de fato, o atributo da divindade.

O exemplo de Moisés
Outro ponto interessante é o quê está escrito na Bíblia, e refiro-me aqui aos Antigo e Novo Testamentos. Alusões a eventos históricos sobrenaturais entremeam-se com a realidade de forma tal que fica difícil crermos em uma explicação “natural” mas, incrivelmente, mais extraordinária! Um destes casos é o de Moisés. Já falei isto em outro artigo, e reitero aqui: ou Moisés foi o maior filósofo de todos os tempos, e todos os nossos livros sobre a História da Filosofia têm de ser mudados rapidamente, ou a Moisés foi revelado algo extraordinário. Sabemos que Moisés escreveu, por volta de 1450 a.C., o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia). Esta é a datação ortodoxa e, se foi neste período, temos em Moisés a primeira expressão de Monoteísmo registrada da História. Contudo, o monoteísmo de Moisés foi diferente de outro grande vulto, cerca de 100 anos depois de si, o faraó Akhenatom. Este estabeleceu um culto “herético” no Egito Antigo, um culto que vislumbrava somente o deus “Atom” (“o sol”). Qual é a enorme diferença entre o culto a “Atom” e o culto ao Deus bíblico? Este, corretamente, revela-se a Moisés como “eterno”, portanto, “ilimitado”. Enquanto aquele era um deus “visível”, portanto, o reflexo latriológico e ideológico de um homem (como qualquer coisa limitada o é), este é racionalmente coerente com o que, em 1450 a.C., se registra dele!

Representação artística do momento do chamado de Moisés, no monte de Deus, conforme descrito no livro do Êxodo, cap. 3. Foi aqui que, segundo a Bíblia, desenvolveu-se aquele diálogo, no mínimo curioso, no qual Deus se revela como O Deus; ilimitado, portanto único.

Representação artística do momento do chamado de Moisés, no monte de Deus, conforme descrito no livro do Êxodo, cap. 3. Foi aqui que, segundo a Bíblia, desenvolveu-se aquele diálogo, no mínimo curioso, no qual Deus se revela como "O" Deus; ilimitado, portanto único.

Isto é o que diz a Bíblia sobre Deus apresentando-se a Moisés, na célebre passagem do livro do Êxodo em que Moisés é chamado para libertar o povo de Israel da escravidão do Egito:

“Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros. Disse Deus ainda mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração”. Êxodo 3:13-15.

Talvez, a melhor tradução para o “EU SOU” seja “AQUELE QUE É”, ou que EXISTE, numa clara evidência de que Deus é ilimitado, tanto em relação ao tempo quanto ao espaço. Isto é extraordinário, pois a passagem é um relato. Observe. Não há um dogmatismo acerca de quem Deus é, o que seria esperado em um livro que falasse sobre Deus no qual se confabulasse sobre Ele. Apesar de Êxodo possuir dogmas, é claro, todos (inclusive o principal, isto é, a pessoa do próprio Deus) fala de si mesmo como “AQUELE QUE É”. Sendo, portanto, ilimitado, é perfeito. Não pode haver mais de um “Deus”, no sentido estrito da palavra, pois do contrário não poderiam ser “Deus”. A unicidade de Deus é evidenciada de uma maneira revelacional, o que é coerente para 1450 a.C.! Se não levarmos em consideração uma evidência como esta é melhor todos desligarmos nossos computadores, pararmos de debater sobre quaisquer assuntos e ficarmos todos pensando exclusivamente em nossa vidas medíocres, enganadas pelos sentidos, cujas informações sequer sabemos se são ou não confiáveis! É preciso se esforçar muito para crer nisto, e muito mais para imaginarmos um resoluto e extraordinariamente humilde filósofo, anos-luz à frente de Aristóteles, Platão ou Sócrates (mesmo que tenha vivido mil anos antes destes), que raciociou (em meio a povos completamente politeístas) sobre um monoteísmo com bases racionais coerentes, e que não se apresenta como o idealizador de nada… tudo lhe foi revelado por esse mesmo Deus, a quem ele e todos os seus (após si) devotaram suas vidas, lutas, esforços, lágrimas, festas, etc… Sim, prezado leitor, esta explicação é muito mais extraordinária do que a crença em um Deus que, de fato, se apresentou a Moisés, e que lhe disse “EU SOU O QUE SOU”, após Moisés (coerentemente, para os seus dias) perguntar-lhe o nome!!!

Tudo isso é apenas uma amostra, prezado leitor. Se eu fosse escrever sobre questões filológicas, outras questões filosóficas, escatológicas, das ciências naturais, etc., teria de fazer vários livros! Isto é só uma mostra de que certas generalizações são ruins, e outras são péssimas! Fechar uma questão filosófica sem um mínimo de reflexão filosófica, assemelha-se a alguém que imagina que, porque pula em um pula-pula de mola no terraço de sua casa por cinco ou dez minutos, também pode ir pulando no aparelho até Washigton D.C. sem parar – é uma inferência, para muitos, obviamente absurda, mas os absurdos são construídos quando não se observam todas as variáveis de determinada questão.

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