Com liberdade também se fala de Deus na “Bola de Neve”

De o Verbo

As luzes se apagam e sincronizadamente guitarra, baixo e bateria dão início ao ar etéreo que seguiria a noite. No púlpito uma prancha de surfe colorida serve de apoio à Bíblia Sagrada com a qual o jovem pastor pregará em mais uma noite de celebração.

Na “platéia”, meninos e meninas de bonés, chinelos, bermudas, piercings e tatuagens louvam a Palavra de Deus. Essa é a mais nova forma de adoração religiosa, a igreja Bola de Neve Church que vem conquistando cada vez mais a juventude de Maringá.

A ideia de criar uma igreja para reunir jovens e falar de Deus de forma livre e moderna partiu do surfista e logo depois pastor Rinaldo Luiz de Seixas Pereira,37, conhecido como Rina, no ano de 2000 em São Paulo. A inovação deu tão certo, que em poucos anos se alastrou pelo país. Hoje são mais de 130 templos. Em Maringá a igreja está em funcionamento há um ano e meio, mas oficializada faz quatro meses, instalada em um barracão alugado e custeado pelos dízimos dos fiéis, na Avenida Brasil, zona 8, região sul.

Ronaldo D., 29, procurou refúgio na religião quando foi preso, acusado de estupro nos Estados Unidos, onde morava. Assim que saiu da prisão e voltou para o Brasil, procurou a Bola de Neve Church. “Eu procurei Jesus, mas não queria uma igreja tradicional, aqui se usa a roupa que quiser e ainda ouve o pastor com um rock ou reggae ao fundo”, diz.

Mesmo sendo recente na cidade, a neopentecostal já reúne um grupo de 300 jovens em seus encontros. A igreja acolhe a todos, independentemente da religião, mas o foco são os jovens que enfrentam algum tipo de problema, em especial com drogas. O próprio pastor André Garcia, conhecido como Magá, 26, dá o testemunho sobre o púlpito e diz ter sido usuário de drogas, sendo internado por cinco vezes e até preso. “Vivia uma vida de depressão e a Bola de Neve mudou isso. Me tornar pastor foi loucura, Deus me chamou e esse Deus é doidão [risos], mas tudo foi um processo e agora ajudo pessoas, e me ajudo, todos temos um chamado”, argumenta.

Nesse universo jovem a religião se manifesta de forma descontraída. São realizados muitos encontros fora da igreja, desde sarais a pistas de skate, crescendo e fortalecendo ainda mais a ideia principal da Bola de Neve Church, a união. ”Sempre fui evangélico, mas não era tão participativo, conheci a igreja pela internet. A Bola de Neve contribui para a amizade, eu não tenho muitos amigos e aqui encontrei uma família”, diz Tiello Marin 20, estudante. Para o doutor em Ciências da religião Luiz Alexandre Solano Rossi o jovem lida com a religião de acordo com seu próprio tempo, mas é preciso ponderar. “Devemos sempre pensar em formas contemporâneas de adorar a Deus e de viver o discipulado. Isso é muito saudável. Todavia, não podemos trocar a serenidade pelo êxtase do sucesso momentâneo; não devemos transformar a realidade eclesial num supermercado que “vende” bens simbólicos de salvação para seus consumidores que, ao não encontrar aquilo que procuram em uma igreja, imediatamente mudam para outra que atenda aos seus desejos”, enfatiza.

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