Nossa responsabilidade ecológica

Nós, no meio ambiente (I)

Na Revista Enfoque
por Israel Belo de Azevedo

A terra está sangrando, mas muitos de nós agimos como se não fosse conosco. Há 6,5 bilhões de pessoas na terra. Que posso fazer eu para que a temperatura não aumente, para que o nível dos mares não suba, para que o efeito estufa seja suavizado, para que espécies animais não sejam extintas?

OS CRISTÃOS ACUSADOS
Os cristãos, por vezes, somos acusados de contribuir com a degradação do meio ambiente.

1. Dizem alguns críticos que, ao propor a idéia de um Deus distinto da natureza, negando assim o panteísmo (segundo o qual Deus é tudo) e o panenteísmo (segundo o qual, Deus está em tudo), o cristianismo contribui para que a natureza seja depreciada, nunca louvada.

A prática cristã dá, infelizmente, razão parcial aos críticos. De fato, por não adorarem a natureza, colocando-a como criada, alguns cristãos acabam por ter uma atitude depreciativa em relação à natureza. No entanto, eu lembro o que disse o poeta: “Os céus declaram a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos” (Sl 19.1).

De modo algum, portanto, o teísmo cristão, em sua essência, deprecia a criação. Se o fizesse, depreciaria o Criador. Mesmo distinta da criação, a natureza mantém o seu encanto, a sua santidade. A terra é santa porque Deus a criou. A terra é santa porque Deus se revela nela. A terra é santa porque Deus está nela (Sl 19.4-6).

2. Dizem alguns críticos que, ao propor uma relação individual do homem com Deus, o cristianismo estimula o ser humano a renunciar a perspectiva solidária da vida, resultando num individualismo que nega a nossa responsabilidade para com o meio em que vivemos e do qual somos também parte.

Somos obrigados a admitir que, diferentemente do que propõe a Bíblia, no primeiro e no segundo Testamentos, acabou por prevalecer uma influência individualista, derivada do pensamento grego, fora do caminho bíblico da vida em comunidade. O individualismo é a afirmação da supremacia do indivíduo, que deve buscar a sua felicidade a qualquer preço, mesmo em prejuízo da comunidade e da natureza. Em relação à natureza, o individualismo é hedonista, isto é, busca o prazer, custe o que custar. Mais ainda, também em relação à natureza, o individualismo é pragmatista, ficando só com o que funciona e descartando o que não funciona.

Embora destaque a responsabilidade pessoal, a Bíblia concebe o homem como um ser que se desenvolve na comunidade. Nada mais evidenciador desta realidade do que o próprio culto público. Podemos cultuar sozinhos e o fazemos, mas precisamos dos outros para cultuar com mais solenidade e alegria. Não há lugar, no cristianismo bíblico, para o absenteísmo – filho de Platão, mas não de Jesus. A religião cristã é essencialmente solidária.

3. Dizem alguns críticos que, ao propor que haverá um novo céu e uma nova terra, a serem inaugurados com o fim do mundo, o cristianismo propõe a lógica do quanto pior melhor para que a parousia seja abreviada.

Lembro que, ainda no final dos anos 70, uma das primeiras vozes a falar na morte do homem por causa da poluição foi um cristão chamado Francis Schaeffer. Ele advertia os cristãos para não deixarem a dianteira dos que lutam pela preservação do meio ambiente. Lembro-me que participei em 1977 de um congresso internacional promovido pelo Concílio Mundial de Igrejas, em Boston, sobre o seguinte tema geral: a fé, a ciência e o futuro. Reunidos ali no Massachussets Institute of Technology (MIT), os cristãos, quando pouco se falava do assunto, lançaram um amplo programa por uma sociedade ecologicamente viável.

É verdade que a doutrina bíblica da criação inclui a dimensão da queda, a partir da qual até hoje a natureza, incluídos os seres humanos, ainda gemem por causa do pecado original. A humanidade estabeleceu o seu domínio sobre a terra. O problema é que este domínio tornou-se uma tirania. Deus não quer a manutenção desta tirania. O jubileu da terra tem a ver com isso.

Aprendemos na Bíblia que à criação seguiu-se a queda, mas à queda se seguirá a redenção, para a qual Jesus Cristo veio. O plano de Deus é restabelecer tudo em todos em Cristo. O Evangelho é cheio de esperança (Cl 1.17-23).

É verdade que os cristãos esperam um novo céu e uma nova terra, mas isto não é niilismo, pela simples razão que o desejo por novos céus e nova terra é o motor para que, à luz destes novos céus e desta nova terra, os cristãos se empenhem por justiça agora e agora, o que inclui um empenho: o de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para promover um desenvolvimento sustentável.

O niilismo é suicida. O cristianismo se move na esperança. A expectativa de novos céus e nova terra é um espelho da esperança cristã. Somos peregrinos na terra. Se somos peregrinos, não nos apegaremos à terra, explorando-a como se fosse nossa última casa. O tesouro do peregrino está no céu. O peregrino pode cuidar da terra, desfrutar da terra e transformar a terra sem degradá-la, sem desagradar a Deus.

TEOLOGIA APLICADA AO MEIO AMBIENTE

Para que tenhamos atitudes santas em relação à terra, precisamos de uma teologia bíblica sobre o meio ambiente. E a Bíblia está cheia de informações e prescrições sobre este assunto. Para minha surpresa, um pesquisador relacionou 2.463 versículos (8% do total) sobre o meio ambiente nas Sagradas Escrituras.

1. Toda a criação é sagrada, no sentido que é uma obra de Deus. Quando lemos a narrativa da criação, vemos Deus se envolvendo pessoalmente nela. O universo revela Deus. A criação comunica a glória de Deus (Sl 19.1).

2. Toda a criação sofre os efeitos da queda, o pecado original do ser humano. As conseqüências, ecologicamente falando, são pintadas na Bíblia, como, por exemplo, em Naum 3.16. A degradação da natureza é uma conseqüência direta da queda. São pecaminosas as políticas nacionais que permitem ou estimulam que os sistemas econômicos exauram a terra. As conseqüências ultrapassam o plano apenas ecológico. Os Estados Unidos preferem investir bilhões para assegurar seu acesso às reservas iraquianas de petróleo, quando seria melhor investir na pesquisa de alternativas energéticas mais limpas.

3. É nossa responsabilidade cuidar da terra. A instrução entregue à primeira família (“O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo”, Gn 2.15) alcança a humanidade de todos os tempos. Deus lega instruções claras sobre o cuidado com o solo (Lv 25.1-5) e com os animais (Gn 1.22, Dt 22.6-7, 25.4). Por que? O animal deve ser tratado com dignidade. Temos um mandato cultural (cultura é cultivo, cultura é transformação) deixado por Deus, que inclui cuidar da terra, inclusive dos animais nela existentes (Gn 2.19).

4. A terra, e tudo o que nela há, é propriedade de Deus. Ele cede esta terra, e tudo o que nela há, ao ser humano por empréstimo. Somos todos usuários, não mais que usuários da terra (Sl 24.1-2).

5. O ser humano pode usar os recursos da terra (Lv 25.6-7). A visão bíblica acerca do meio ambiente pode ser classificada como antropocêntrica, no sentido que recomenda o uso dos recursos naturais como fontes para a satisfação das necessidades materiais humanas. Uma leitura de Gênesis nos mostra que Deus providenciou plantas e animais para o convívio e para o alimento humano.

Se alguém entende que deve ser vegetariano por uma razão de saúde ou de reverência pelos seres vivos, eu respeito e aplaudo. Pode ser radical para alguns a decisão, mas é digna de respeito.

Antropocentricamente entendo que os animais podem ser usados para fins de pesquisa médica, mas dentro de limites. Os animais podem ser abatidos para alimento, mas dentro de limites. Esses limites devem considerar realidades óbvias como o sofrimento. Na pesquisa, os animais devem ser usados só em último caso, nunca como jogo ou experimentação irresponsável. No alimento, os animais para abate devem ser tratados com dignidade desde a sua criação. Não devemos desperdiçar a carne colocada diante de nós. Não devemos abater por esporte (como nos casos de caça e pesca esportiva, em que haja sacrifícios desses animais).

Todo desrespeito à dignidade do solo e dos animais é pecado. Isto inclui o desrespeito para com o ser humano, seja aquele que está diante de nós (no convívio humano), aquele que está à margem de nós (por alguma condição desumana) e aquele que ainda não nasceu (que não pode ser abortado porque concebido irresponsavelmente). Texto integral da coluna pode ser lida em http://www.prazerdapalavra.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=548:gsis-11-n-no-meio-ambiente&catid=79:capitulo-1

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